Desafinada, sim (mas muito rica)
Texto: NUNO GALOPIM
Cinco dias depois de uma inesquecível atuação no Carnegie Hall – e digo “inesquecível” porque, segundo o biopic de Stephen Frears, é a gravação de arquivo mais vezes requisitada naquela sala nova-iorquina -, Florence Foster Jenkins morreu vítima de um ataque cardíaco quando fazia compras na mesma cidade que a transformara, para o melhor e o pior, numa das “sensações” musicais daquele tempo.
O concerto fora um verdadeiro acontecimento. Não era o primeiro recital que dava. Mas até então a socialite – que apoiava e financiava pessoalmente inúmeras instituições musicais da cidade – só tinha atuado em espaços reservados, com acesso limitado e controlado, entoando assim para plateias de amigos a sua absoluta incapacidade em cantar afinada e toda uma postura algo invulgar em divas do bel canto. Pois naquele serão de 26 de novembro de 1944, Florence Foster Jenkins (1868-1944) cantava para um Carnegie Hall com sala esgotada, havendo notícia de que mais de duas mil pessoas terão ficado na rua, sem poder entrar. Mal fora anunciado, o recital foi alvo de um surto de interesse e a bilheteira esvaiu-se num instante… A casa estava cheia – inclusivamente com figuras de relevo da vida musical nova-iorquina – na plateia (e alguns eram mesmo genuínos admiradores). E quando, acompanhada pelo pianista Cosmé MacMoon, Florence entra em palco e dá a primeira nota, uma atmosfera de tensão instala-se. Entre a vergonha alheia de uns, a eventual admiração perante tão ousadia de outros, o riso ou o choque, o silêncio desta vez fora impossível de se manter. Há relatos de que uma atriz foi retirada do seu camarote depois de um ataque de histeria. E entre aplausos e apupos a noite fez-se única, com a crítica a desmontar o que ali acontecera nos jornais do dia seguinte.
Era o ponto final de uma vida dedicada à música e feita de sonhos, cheia de factos concretos mas também de muitas notas ainda hoje por explicar (nomeadamente as razões concretas de tamanha incapacidade para notar a total ausência de voz).
Nascida numa família abastada da Pensilvânia, Florence Foster Jenkins começou cedo a tocar piano e aos oito anos de idade deu um recital na Casa Branca. Porém, ao deixar claro perante o pai que pretendia fazer uma carreira na música, optou por sair de casa a ter de viver com o “não” com que a declaração fora recebida. Casou em Filadélfia com Frank Jenkins mas, um ano depois, ao saber que tinha contraído sífilis por via dele, separou-se, mostrando resiliência ao iniciar uma nova vida, dando aulas de piano para se sustentar. Uma lesão numa das mãos destruiu os sonhos de uma carreira concertante. Mas a música não desapareceu nunca do seu horizonte. Tanto que, anos depois, já a viver em Nova Iorque, num segundo casamento – com o declamador St. Clair Bayfield – e depois de ter herdado a fortuna do pai (que morre em 1902), Florence torna-se numa figura de relevo da sociedade nova-iorquina, ganhando visibilidade através da sua paixão pela música e pelos dólares com que passou a financiar projetos, tendo, entre outros, fundado o Verdi Club.
Começou a ter lições de canto… Mas em nada a cantora de então traduzia o talento em potência da pianista que antes fora. Desafinava tremendamente. Mas cantava. E por vezes entre amigos, entre os quais figuras de relevo do meio musical da cidade. Cole Porter, por exemplo, riu e comentou sem filtro um dos seus recitais. Mas raramente faltava… Mozart, Verdi, Brahms e algumas composições inéditas criadas com o pianista Cosmé MacMoon faziam os programas, que aos poucos se tornaram num segredo bem guardado, mas com comentado com meias palavras, quase criando uma personagem com a tessitura de um mito.
As poucas vezes que gravou em estúdio fê-lo para alimentar o mesmo circuito próximo de amigos que comparecia em recitais que ia dando, invariavelmente à porta fechada, em salões de grandes hotéis da cidade. Estas gravações estão hoje disponíveis em disco.
Aos 76 anos, o recital no Carnegie Hall foi o momento climático de todo este percurso invulgar. Por um lado deu-lhe a plateia de dimensão maior e os aplausos (porque os houve) com que sonhara. Por outro as críticas contundentes que traduziram em palavras despidas de filtro o invulgar momento que aquela sala presenciara na véspera. Se o impacte destes textos terá ou não precipitado a sua morte não o sabemos. Doente há longos anos, sujeita a tratamentos com mercúrio e arsénico, e com uma idade relativamente avançada para os padrões da época, Florence Foster Jenkins não tinha já a força que a fizera sobreviver nos anos em que não nadou em notas de dólar.
O seu legado enquanto “cantora” é frequentemente fonte de sátira e motivo de riso. Mas convém não esquecer que a vida musical de Nova Iorque, quer depois da Grande Depressão quer em tempos de guerra, sobre muitas vezes meter tampões nos ouvidos, sorrir, e aceitar os dólares com que Florence Foster Jenkins manteve o coração de várias instituições a bater em bom ritmo e a cantar afinadamente.
PS. Apesar das características vocais invulgares, a história de vida de Florence Foster Jenkins é bastante diferente da que conhecemos da portuguesa Natália de Andrade, pelo que as comparações me parecem sempre pouco… afinadas.



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