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O futuro é um lugar estranho (e acelerado)

Texto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA

Depois de uma experiência de quase-morte, as irmãs Larson partiram do trauma para transformá-lo em música. O resultado é “Xtreme Now”, o oitavo álbum das Prince Rama.

Isolaram-se entre uma comunidade numa ilha remota na Estónia durante o Verão de 2012 e, ao explorar uma ruína viking, Taraka Larson quase morreu. Precedentes da situação levaram-na a surto de esquizofrenia temporal, tendo ela afirmado que viajou aos tempos medievais e, depois, ao ano de 2067. Concluiu que o futuro é um lugar estranho, onde a arte se funde com desportos radicais, os museus são patrocinados por bebidas energéticas e a beleza é definida através de velocidade.

Visões do além, verdadeiras ou não, valeram às Prince Rama a experiência para criar um conceito e um álbum que fosse a banda sonora da sua viagem ao futuro. Assim surge Xtreme Now, o álbum mais radical da carreira de uma das bandas conceptualmente e visualmente mais interessantes da actualidade, apadrinhadas por Avey Tare e Deakin dos Animal Collective.

Com Top Ten Hits of The End of The World, o antecessor deste novo álbum, tivemos uma viragem da banda para um lado mais polido em termos de produção. Em formato “compilação”, as irmãs encarnaram dez bandas (fictícias) que morreram durante um apocalipse. Já aqui exploravam um imaginário utópico em busca de respostas que nunca chegaram. Agora com Xtreme Now celebram a “Speed Art”, um conceito onde, num futuro, a arte se unirá com os desportos radicais, e a velocidade será o que determinará a beleza. Apropriando-se e dando destaque na sua capa a uma das figuras mais icónicas da arte universal, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o processo criativo deste novo álbum é uma tentativa de equilibrar a sua música com a intensidade metafísica da junção da arte com os desportos com elevados níveis de adrenalina.

Procurando inspiração entre vídeos de desportos de alto risco filmados com uma câmara GoPro em silêncio, as irmãs quiseram criar, com base no que viram, uma banda sonora digna de um canal desportivo. É essa a impressão que temos logo com Bahia, onde Taraka canta em dueto consigo própria usando um codificador de voz. Your Life To The End, Would You Like to Be Adored ou, a que mais se destaca, Fantasy, permitem que Xtreme Now se torne num álbum muito característico e que, afinal, em tudo se relaciona com o que conhecemos das Prince Rama.

Existe toda esta forte fusão de influências (desporto, arte, exagero, cor ou filosofia) em Xtreme Now, mas o que é importante reter aqui é o facto das Prince Rama permanecerem fiéis a si mesmas e aos seus conceitos invulgares. A sua sede de inovação e trascendência (e certamente bizarria) ao criar um álbum transparece em Xtreme Now, colocando este novo projecto entre os melhores lançamentos de 2016 e tornando-o num marco no seu reportório.

Prince Rama
“Xtreme Now”
Carpark Records
★★★★

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