“Love Symbol”: uma ópera pop/rock ao estilo de Prince
Texto: NUNO GALOPIM
O sucesso global de Diamonds and Pearls – álbum que deu a Prince os seus melhores resultados nas vendas desde Purple Rain – deu ao músico argumentos sólidos na altura de iniciar uma nova etapa de relacionamento com a editora com a qual trabalhava desde o início da sua carreira e com a qual assinara um vantajoso novo acordo que lhe concederia farta soma de avanço caso o álbum anterior tivesse atingido o patamar dos dez milhões… A digressão que levou o álbum de 1991 foi extensa e mediática. Mas deu a Prince espaço para compor um novo corpo de canções que, pouco depois de terminadas as datas na estrada, o levaram a estúdio novamente na companhia da New Power Generation. Certa já era a sua vontade de usar um título impronunciável no disco.
Os novos temas refletiam a mesma abertura de horizontes que definira Diamonds and Pearls, mantendo focadas atenções num recentrar de prioridades no funk e r&b, mas garantindo espaço de respiração a outros diálogos, das pontes (já percorridas) em diálogo com a cultura pop/rock a novos flirts com o hip hop, o jazz e até mesmo ensaiando uma breve incursão pelos domínios do reggae.
Tal como sucedera com o álbum de 1991 houve desde logo em Prince uma consciência de que a relação com as imagens era fulcral para a exposição do disco, tanto que desde logo começou a criar telediscos para as novas canções. Na verdade, aos pequenos filmes promocionais para servir a edição dos singles acabou a juntar não só vídeos para outras canções, juntando à sua sucessão o esboço de uma trama, o que o conduziu à criação de 3 Chains o’Gold, um novo filme (co-realizado por Prince) que teria apenas expressão numa edição em vídeo.
Apesar de ser mais um disco capaz de mostrar a versatilidade estilística sobre a qual a escrita de Prince se podia debruçar e de contar uma mão cheia de canções magníficas, o álbum acabou muito aquém das expectativas comerciais que o projeto inicialmente levantara. A escolha dos dois primeiros singles – My Name Is Prince e Sexy MF – não gerou momentos de impacte maior nos EUA, obtendo maior aceitação na Europa. O oposto de 7, a escolha desejada pela editora (numa canção que evoca os diálogos pop/rock dos tempos dos Revolution) que chegaria ao número 7 americano, não causando grande furor deste lado do Atlântico… Algo estava a correr menos bem neste plano.
A vontade de criar uma narrativa em torno destas canções, usando elementos de ligação que as tornam parte de um todo, concretizou a ideia da rock soap opera a que Prince aludiu (e há uma dimensão clássica de ópera rock, de facto, em temas como 3 Chains o’Gold ou The Morning Papers). Mas foi, parta alguns, um senão num alinhamento que viveria por si e até seria capaz de suportar o conceito mesmo sem essas peças de ligação. O álbum lança algumas ideias que dominariam alguns dos casos mediáticos que estavam a caminho. O “Victor”, personagem desta ficção que acabou por alguns tomado como um nome ou alter-ego de Prince, tem aqui o seu berço. Tal como a utilização da imagem do “escravo”, que o músico usaria em letras no rosto, poucos anos depois, no auge da sua contenda com a editora.
O disco teve ainda, como Prince desejava, um título impronunciável, sendo identificado pelo símbolo que o músico tomaria como o seu próprio nome artístico pouco depois. Mesmo assim, o álbum ficou conhecido como Love Symbol.


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