Bruno Pernadas: crocodilos, verões amargos e o “cérebro eletrônico”
Texto: PEDRO MIRANDA
Em 1969, auge da Tropicália como movimento artístico e interventivo no Brasil, um ainda jovem mas já prolífico Gilberto Gil reflectia sobre as vicissitudes do natural e do artificial em Cérebro Eletrônico, num disco que ficaria conhecido pelo mesmo nome: “O cérebro eletrônico faz tudo/ Faz quase tudo/ Mas ele é mudo/ O cérebro eletrônico comanda/ manda e desmanda/ Mas ele não anda.” Mais à frente, como que reafirmando a sua posição: “Só eu posso pensar/ Se Deus existe/ Só eu posso chorar/ Quando estou triste/ Só eu/ Eu cá com meus botões/ De carne e osso.” Numa grosseira simplificação: a máquina opera, mas só a carne sente.
Um mar de géneros, influências e tempos separam a Tropicália de Gilberto Gil da música que faz Bruno Pernadas, ainda que se utilize ocasionalmente de ritmos que lembrem os ares das terras latino-americanas. Gil é predominantemente minimalista no seu método, enquanto Bruno não conhece barreiras na diversidade de timbres que utiliza; Gil investe-se em considerações político-ideológicas, enquanto Bruno prefere explorar as tendências mais emocionais da experiência humana; Gil era do povo, enquanto que tudo o que Bruno faz reflecte erudição e academia.
E erudição foi, com naturalidade, uma das características que mais passou na sua estreia nos discos de 2014, How to Be Joyful in a World Full of Knowledge?, um título que denuncia uma angústia existencial tão profunda quanto ambiciosas eram as suas excursões por temas como Ahhhhh, How Would it Be? e L.A.. Sem surpresas, foi um dos mais celebrados discos portugueses do ano, mas falhou em traduzir a adulação num reconhecimento mais abrangente pelo público. Em boa verdade, se houvesse justiça nestas coisas, o nome de Bruno Pernadas seria desconhecido a poucos, tanto cá dentro como lá fora. Mas não é como se o ex-pupilo do Hot Club e actual tesouro da Pataca pudesse reclamar: de volta aos discos, e desta vez com uma fornada de dois de vez, foi presenteado com igual número de datas completamente esgotadas no Maria Matos, uma para cada um dos seus impacientemente antecipados novos LP.
À primeira, não há muito de novo, o que significa que tudo continua a ser espantoso. Crocodiles, de nome completo Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them, assume-se como herdeiro e perpetuador do legado de How to be joyful in a world full of knowledge?, e não é em vão que carrega a mesma riqueza de sons: com dez músicos em palco, incluindo o próprio, Pernadas utilizava-se de guitarras acústicas e eléctricas, sintetizadores de diferentes tamanhos e formas, uma alargada secção de sopros com trompete, trombone e dois saxofones e ainda elaboradas harmonias vocais à boa moda do seu début. O resultado pode ser situado algures entre a excelência de Pink Floyd, a excentricidade de Zappa e a raison d’être de Miles Davis: a ambição de Bruno Pernadas continua a não conhecer limites, e ainda que limitada no Maria Matos por um som deficiente (que não deixava transparecer alguns valiosos detalhes de suas composições), manifestava-se em vorazes passagens melódicas, desafiantes mudanças de métrica e uma impecavelmente construída orquestração, mesmo que, no seu cerne, seja de canções pop que consista Crocodiles.
Daí que, de certa forma, tenha sido algo mesmerizante para a plateia sentada do Maria Matos o quão eficazmente consegue Pernadas unir estas duas realidades, a do apelo pop à da mais formal academia. Continua, com efeito, a dar melhor uso às vozes de Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown) e Francisca Cortesão (Minta & the Brook Trout) que àquele que se observa nos seus respectivos projectos, e através da meticulosa reunião da sua “orquestra” conduzia-a, e ao público, por inebriantes viagens de som e cor que se esticavam muitas vezes para lá da marca dos dez minutos – Anywhere in Spacetime, Spaceway 70, Ya Ya Breathe – tendo quase sempre como plataforma temática o espaço sideral e a imensidão do universo.
Mas o mais espantoso de todas as componentes espantosas de que viveu a apresentação de Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them foi mesmo o facto de, voltando ao Maria Matos na semana seguinte, nos apercebermos de que o disco era afinal o cérebro eletrônico de Pernadas, e de que a verdadeira humanidade só viria com Worst Summer Ever, o seu segundo, bastante menos publicitado e ainda menos antecipado LP de 2016.
Bastante mais focado no jazz em que foi instruído, Worst Summer Ever é muito provavelmente o momento da carreira de Pernadas em que as suas disposições melódicas atingem finalmente o nível das suas virtudes técnicas. O alinhamento de palco, desta feita, resumia-se ao essencial: guitarra, bateria, contrabaixo, piano e saxofone, e foi o que bastou para que o quinteto tecesse canções que transpareciam maior sentimento que qualquer faixa de Crocodiles alguma vez poderia. Retire-se os as malhas angulares, os padrões cíclicos, as electrónicas apostas e tudo o resto que é mais complementar que propriamente substancial, e obtém-se o que, naquele momento, soou ao que Pernadas nasceu para fazer: jazz moderno, progressivo, belissimamente melodioso, contido e nem por isso menos ambicioso nas suas conquistas.
Conquistas essas que não poderiam ser mais pronunciadas: as canções, sempre com raiz firme num jazz até relativamente convencional, afloravam em deambulações por pequenos tiques de psicadelismo, rock progressivo, folk e até algum rock alternativo. Emocionalmente, Worst Summer Ever ouvia-se como se a banda sonora de intrincado filme, passando com facilidade de tristeza (September 4th) a alegria (This is Not a Folk Song) e por tudo o que pelo meio se encontra (Love Versus Love), ainda que o seu título denuncie uma inclinação para o lado mais negativo. E, retendo algum sentido de aventura de How to be Joyful, Bruno Pernadas foi ainda capaz de incluir alguma prestidigitação à guitarra e deixar brilhar os invariavelmente excelentes músicos que o acompanham – o sinal do verdadeiro prodígio.
Por mais potência que carregasse o cérebro de Crocodiles (um disco que, talvez com alguma autoconsciência, leva um nome que dá a entender uma espécie de lógica de maquinismo, um “bait-and-switch” tão artificial quanto obrigatório), nada poderia competir com o sentimento de acordar uma manhã e sentir o aperto no coração de quem deixou o verão inteiro deslizar-se-lhe pelos dedos. A não ser, é claro, a expressão musical desse mesmo sentimento.
Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them
★★★★
Worst Summer Ever
★★★★★
Ambos editados pela Pataca Discos



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