As pequenas sinfonias urbanas de C Duncan
Texto: NUNO GALOPIM
Editado em 2015, o álbum Architect revelou-nos uma das melhores surpresas do panorama pop/rock do ano passado. Assinando como C Duncan – com “C” de Christopher – este músico presentemente com 27 anos, é filho de pais com trabalho feito nos universos da música clássica, fez a sua formação na Royal Scottish Academy of Music (que hoje se apresenta como Royal Conservatoire of Scotland), onde estudou composição, e teve um início de carreira que viu peças por si compostas a ser interpretadas por vários ensembles em salas de concerto do Reino Unido. Em Architect apresentava-nos um álbum pop que revelava um saber cuidado na composição, arranjos bem estruturados, com uma rara variedade de cores instrumentais (dos registos acústicos ao labor elétrico e eletrónico), uma procura de texturas que desenham cenários mas não sufocam a escrita e uma segura prestação vocal que junta vários episódios de cativantes harmonizações. Um daqueles raros discos capazes de convocar toda uma série de escolas e memórias sem perder a noção que define banda sonora para uma música do presente, Architect chegou mesmo a ser um dos nomeados para o Mercury Prize.
Agora, um ano depois, e revelando um ritmo de trabalho pouco comum num tempo em que os ciclos de vida de cada disco e respetiva digressão tendem a ser mais longos, eis que faz do segundo álbum uma absoluta confirmação de todas as expectativas. E com o valor acrescentado de revelar, sob sólidas marcas de uma clara identidade, uma capacidade em procurar outros destinos para as suas canções.
The Midnight Sun é um disco mais sombrio (o título desde logo sugere-o), mais pessoal (ou seja, mais íntimo), e ainda mais atento aos diálogos entre a o trabalho de composição e o detalhe na produção. As marcas luminosas de vivências folk que, em Architect, se cruzavam com paisagens sonoras de vivência urbana, cedem aqui lugar a uma mais evidente presença das eletrónicas que, com travo noturno, dominam a construção de cenografias que não fecham a porta a outros instrumentos, criando novamente as telas sobre as quais um trabalho de vocalização frágil (e pensado em camadas) volta a ser um valor maior na demarcação de uma identidade artística.
C Duncan fala-nos desta vez de memórias, muitas delas de perta, algumas mais distantes outras mais próximas. E, em sintonia com as narrativas, os cenários servem a construção de um espaço que, mais ainda do que no álbum de estreia, aqui define um corpo coeso e consequente. E entre a viagem eletrónica de fim de noite em On Course ou a sofisticação quase orquestral de Nothing More revela-se um conjunto de quadros que, mesmo tendo por título o nome de um episódio da série The Twilight Zone e, consequentemente, ecos sci-fi na sua alma, sublinha apesar de tudo um discurso humano, frágil e bem verdadeiro… Se nem só do realismo vive a capacidade de falar do real no cinema, a obra (em construção) de C Duncan é já expressão de uma possível transposição para a música dessa mesma reflexão.
C Duncan
“The Midnight Sun”
FatCat Records / Popstock
★★★★★


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