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Viagem ao coração dos pássaros

Texto: NUNO CARVALHO

“O Ornitólogo” é de um primor visual notável. Mas falta alguma densidade ao argumento, que joga com a procura de uma transcendência sem um domínio suficientemente sólido do tema para subvertê-lo de um modo realmente interessante.

Numa entrevista recente, João Pedro Rodrigues disse que João Bénard da Costa, através das folhas de sala da Cinemateca Portuguesa, ainda no tempo da direção de Luís de Pina, lhe ensinou a olhar para os filmes muito como imagens, sons e enquadramentos. Não estaremos perante uma declaração de formalismo por parte do realizador, mas é verdade que há nos seus filmes uma atenção especial à dimensão estética e à criação de atmosferas que fazem do autor de O Fantasma um esteta para quem a narrativa no sentido mais clássico, estruturado e linear não é uma preocupação de primeira ordem. E isso é ainda mais evidente num filme como O Ornitólogo, em que o facto de o protagonista ser um homem literal e simbolicamente perdido numa floresta abre caminho para o desenho de uma estrutura narrativa mais livre, solta e menos subjugada à obrigação de contar uma história mais padronizada e programática, ou seja, com um caderno de encargos rígido, fixo, diagramático e fechado à surpresa criativa.

Talvez não seja tão fácil fazer uma sinopse do plot de O Ornitólogo quanto dizer que se trata de um “filme sobre…” Porque não há um enredo muito objetivo e delimitado, ou porque o “enredo” consiste em enredarmo-nos na floresta de um certo alheamento (no sentido da alienação e do descolamento do mundo real, com referências estáveis e reconhecíveis, em direção a um espaço sem tempo, um lugar em que interior e exterior parecem sobrepostos). As palavras que surgem em epígrafe no início do filme remetem para Santo António – a figura mítica que serve de inspiração para representar a pequena e metafórica via-sacra de Fernando (Paul Hamy), um ornitólogo de 40 anos que se perde na sua solitária viagem de investigação de aves no interior do país –, mas também não ficaria mal se fossem os primeiros versos de A Divina Comédia de Dante: “No meio do caminho em nossa vida,/ eu me encontrei por uma selva escura/ porque a direita via era perdida.”

No entanto, não deixa de haver em O Ornitólogo um lado pretensioso e superficial. Ou seja, às tantas parece que o filme é muita coisa (ao convocar referências místicas e espirituais que não tem estofo para tratar com profundidade ou um sentido alegórico verdadeiramente estimulante e complexo) e ao mesmo tempo não é nada. Pelo menos nada com muita espessura, resultando numa miscelânea light e a descambar um pouco para o terreno da “jornada espiritual” new age, facilmente redentora e demasiado obtusa no seu alcance. João Pedro Rodrigues, na sua pretendida metáfora do homem que morre e renasce um outro, está aqui longe da genialidade do Gus Van Sant de Gerry, essa sim uma extraordinária parábola espiritual. Talvez fique mais perto do Alain Guiraudie de O Desconhecido do Lago (que não é um realizador muito interessante). E talvez até tenha mesmo um lado de François Ozon (mas sem a solidez narrativa do cineasta francês). Porém, tirando as boas imagens, um bom trabalho de efeitos sonoros e enquadramentos cuidados, falta densidade a um argumento que joga com a procura de uma transcendência mas sem um domínio suficientemente sólido do tema para subvertê-lo de um modo realmente interessante.

“O Ornitólogo”
de João Pedro Rodrigues
com Paul Hamy, João Pedro Rodrigues, Chan Suan
★★★

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