“Chaos and Disorder”: um inesperado álbum de rock, com pérolas perdidas lá pelo meio
Texto: NUNO GALOPIM
O casamento com Mayte Garcia trouxe às primeiras semanas de 1996 uma nota de tranquilidade e felicidade aos noticiários sobre Prince. Havia mesmo assim um diferendo a resolver definitivamente com a Warner. E a nota de separação foi finalmente assinada, cabendo a Prince entregar mais dois discos à editora. Um deles seria feito de gravações do seu grande arquivo. O outro, criou-o num ápice.
Conta-se que Chaos and Disorder levou uma semana a nascer em estúdio, juntando a Prince alguns elementos da New Power Generation, cuja formação havia sido recentemente reformulada.
O disco aterrou como surpresa absoluta. Há muito que estávamos habituados a encontrar peças de fulgor rock entre as canções de Prince. Mas Chaos and Disorder estende toda essa relação ao alinhamento do álbum. A ideia poderia ser interessante, mas o alinhamento é desigual e o álbum rock de Prince não está de todo à altura dos melhores episódios elétricos que foi apresentando ao longo da sua discografia.
Este não é todavia um álbum medíocre. De resto, houve logo na altura uma clara divisão de opiniões, surgindo até mesmo uma crítica que apontava este como o melhor disco desde Purple Rain (opinião que só o gosto de quem assinou essas palavras poderá contudo justificar).
Há alguns momentos interessantes no alinhamento. As pontes mais teatrais (com presenças de metais) em Right or Wrong, o apelo bluesey mais abrasivo de Zannalee ou a puslação funk de I Rock Therefore I Am são episódios que mostram que o ecletismo característico das visões de Prince procurou aqui expressões possíveis num plano no qual, por ponto de partida, o músico colocou o rock’n’roll como matéria prima central a explorar.
Como single foi (bem) escolhido Dinner With Delores, canção de alma mais pop e menos angulosa que, na verdade, pode contar-se até entre os mais interessantes dos singles de Prince em meados dos anos 90. O single não teve todavia edição nos EUA, conhecendo apenas presença no mercado britânico onde não foi além de um discreto número 36.
Há um saboroso momento de viço funk e alma r&B em Dig U Better Dead, escondido quase no fim do alinhamento e que, num outro momento, poderia ter conquistado outra visibilidade. E, ainda, um belo exercício de busca de novos patamares cénicos nos arranjos orquestrais que fazem de Had U outra das peças esquecidas de um disco que acabou meio perdido entre o caos e desordem em que viveu a relação de Prince com os seus admiradores nesta etapa da sua carreira.

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