Que integridade pós-Alice Glass?
Texto: GONÇALO COTA
Decorria o ano de 2014 quando Alice Glass anunciou uma carreira a solo, o que levaria ao eventual colapso do duo electro-pop no qual militava: “My art and my self-expression in any form has always been an attempt towards sincerity, honesty, and empathy for others. For a multitude of reasons both professional and personal I no longer feel that this is possible within CC”.
Aquilo que poderia ser uma postagem de Facebook de morte anunciada, torna-se numa possibilidade de revitalização: a americana Edith Frances junta-se a Ethan Kath, um dos membros fundadores, numa tentativa de exorcizar o legado de Alice Glass sem que de alguma forma se perca a identidade que combina música eletrónica com reminiscências do punk industrial de outrora.
Amnesty (I) traz a possibilidade de uma nova era, depois da trilogia Crystal Castles, Crystal Castles (II) e (III). Ou provavelmente não: algumas das canções que fazem parte deste álbum parecem-me versões mais fragilizadas, mascaradas de vulnerabilidade, dos seus três antecessores. E na segunda parte do disco faz-se uma aproximação falhada a uma pop que não sabe a nada. De destacar canções como Femen e Char que acrescentam algo dialeticamente interessante e diferente daquilo que foi feito anteriormente por Glass e Kath, na última década.
Curiosamente, os lucros do álbum lançado em agosto passado vão em grande parte para a Amnistia Internacional. Antes do lançamento, lançaram um comunicado que reforça a necessidade de mobilização de recursos: “(…) They fight for LGBTQ rights, women’s rights, prisoner rights, and children’s rights. They fight against discrimination (…) They are the people on the ground working to change these issues and they need our help. Not just our words, but also our resources.”
O Requiem em ré Menor de Mozart é o contrastante anúncio da chegada dos Crystal Castles ao Paradise Garage, em Lisboa. As luzes fulminantes não permitem olhar diretamente para o palco mais que alguns segundos, só se conseguindo distinguir os cabelos cor-de-rosa de Edith Frances, que se movimentam caoticamente pelo palco: ora no chão ajoelhada, ora em cima das colunas que compunham o pequeno palco.
Tenho uma sensação estranha face à performance da nova vocalista, que não me consegue retirar o espirito saudosista inerente à saída da sua antecessora: tem uma fruição em palco muito mecanizada, a entrega ao público é feita de forma mais singela e a voz foi de difícil perceção de tão sintetizada. Apesar disso conseguem entregar, em conjunto, a atmosfera que os caracteriza devido à química entre os dois. Acredito também que o equilíbrio do alinhamento fará com que Edith possa estabelecer-se, ainda que morosamente, como a nova vocalista e não meramente uma substituta.
Baptism leva-a a espalhar água pelas cabeças daqueles que estavam nas primeiras filas, numa verdadeira celebração simbólica da passagem para a nova vida de Crystal Castles. Os ritmos intoxicam mesmo os corpos mais molhados, impedindo-os de estar parados ao som da agressividade rítmica de Crimewave e de Untrust Us, que não impedem comparações entre as duas vocalistas. As luzes azuis revelam as cabeças suadas daqueles que embarcam na sonoridade das músicas mais recentes como Kept ou Concrete. Na despedida, Not in Love, o maior sucesso comercial da banda e originalmente cantada por Robert Smith (vocalista dos The Cure), contribuindo facilmente para o êxtase geral.

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