Inferno sobre rodas
Texto: NUNO CARVALHO
Se Alfred Hitchcock considerava que um filme deveria ser uma fatia de bolo em vez de um pedaço de realidade, então o muito hitchcockiano Um Assassino pelas Costas (Duel, 1971), um projeto feito para televisão que deu a um Steven Spielberg com apenas 24 anos luz verde para avançar para obras de maior escala, é um autêntico manjar que ainda hoje, quatro décadas e meia depois, mantém intacto o seu intenso e especioso paladar.
Aliás, foi o próprio realizador que admitiu a influência do “mestre do suspense”, descrevendo mesmo Duel como a sua versão de Os Pássaros, sendo aqui a ameaça corporizada não por aves metafisicamente revoltosas mas por um demoníaco camião de 40 toneladas que se transforma numa potencial arma letal.
Spielberg filma o “duelo” entre um decrépito camião-cisterna conduzido por um misterioso e psicopático camionista e um “cavalheiro do asfalto” (interpretado por Dennis Weaver, cuja personagem de um “cobarde nervoso” em A Sede do Mal de Orson Welles convencera o realizador a dar-lhe o papel de David Mann, o “protagonista” de Duel – e pomos esta palavra entre aspas porque o verdadeiro protagonista do filme é sem dúvida o tenebroso camião). O jogo mortal entre “Godzilla e Bambi” começa quando David, um viajante de negócios da Califórnia, é desafiantemente ultrapassado pelo camião que instantes antes ultrapassara calmamente numa estrada erma que atravessa paisagens desérticas. A partir daí instala-se uma perseguição maníaca do camião ao pequeno Plymouth Valiant encarnado de David, numa luta deste último pela sobrevivência que funciona também como uma metáfora mais lata da provocação, assédio e “bullying” de um brutamontes contra um típico “weak/mousy man”.
Baseado num conto de Richard Matheson originalmente publicado na edição de abril de 1971 da revista Playboy e inspirado num despique real similar, ainda que numa escala diversa, ao do filme vivido pelo escritor, Um Assassino pelas Costas é ao mesmo tempo uma proeza cinematográfica, sendo, como acertadamente diz Ian Freer em The Complete Spielberg, o mais minimalista e não sentimental dos filmes do cineasta, e de planeamento de produção, tendo sido filmado em 12 dias. O método utilizado por Spielberg para cumprir os prazos apertados e o orçamento recaiu muito no rigor dos storyboards (à semelhança do que também fazia Hitchcock), sendo Duel uma perfeita e talentosíssima combinação de imaginação cinematográfica (os planos menos “utilitários” desta perseguição impiedosa são muito inventivos e revelam um extraordinário talento de visualização), capacidade de fazer muito com muito pouco (um plot line de uma nota só) e inteligente gestão do suspense.
“Um Assassino pelas Costas” passa amanhã, às 21.30, no Espaço Nimas, integrado no programa Sessões de Culto

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