Vai uma colherada de novas canções?
Texto: NUNO GALOPIM
Bem antes dos Strokes, Franz Ferdinand, Yeah Yeah Yeahs, The Killers e tantas outras bandas que encontraram em heranças pós-punk os tijolos com os quais estruturaram as bases da sua identidade os Spoon já por cá andavam nos anos 90, na altura talvez mais perto ainda de uns Pixies, Sonic Youth e abordagens mais primordiais e ásperas do que concentrados num olhar mais gourmet sobre as diversas condimentações que transformaram depois o seu som numa experiência mais rica em cores e sabores, com resultados já bem claros em Kill The Moonlight, o seu quarto álbum de estúdio, editado em 2002. Deram-nos depois peças de requintada culinária indie pop como Gimmie Fiction (2005) ou, mais tarde, They Want My Soul (2014), disco ao qual se seguiu um silêncio que o novo Hot Thoughts finalmente interrompe.
Sem querer aventurar-se para lá do habitual terreno indie rock com gosto pelo melodismo pop clássico, mantendo firme as suas genéticas new wave e garage rock (se bem que com a garagem agora transformada em lugar confortável para gente crescida e não mais um lugar de fuga e rebeldia juvenil), convocando cores e formas no disco e outros temperos que amplificam a sua paleta de tons e possibilidades, Hot Thoughts junta um saber já veterano na escrita de canções a uma vontade em trabalhar as cenografias em seu redor. Como os Duran Duran na etapa Medazzaland os Spoon apresentam aqui um álbum que concilia o gosto pelas estruturas clássicas da canção com uma vontade em experimentar o modo de depois lhes pode dar forma. Pode não ser a mais evidente fonte de surpresas. Nem é de todo um disco para levar a banda ou a música de 2017 a novos patamares e joga até bem seguro mesmo no modo de experimentar. Mas há por este alinhamento alguns momentos de delícia para quem gosta de encontrar, no presente, heranças naturais da riqueza de cores e formas que a canção pop/rock respirou entre finais dos setentas e a alvorada dos oitentas.
“Hot Thoughts”, dos Spoon, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, em edição pela Matador Records. ★★★


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