Desculpem lá, mas as cassetes não me convencem…
Texto: NUNO GALOPIM
Os fenómenos de revivalismo são muitas vezes protagonizados por gerações que não viveram a experiência original. E se em alguns casos promovem novas vidas para realidades interessantes que, por algum motivo, ameaçavam ser votadas ao esquecimento, noutro procuram dar novas oportunidades ao que não valia mesmo a pena ser recuperado. É claro que o elemento “gosto” definirá para cada um os revivalismos que lhe interessa… E ainda bem que assim é, claro.
No meu caso ninguém me vai nunca convencer, por exemplo, e depois daquele fenómeno viral ocorrido há alguns tempos, que Rick Astley agora é cool quando, na altura, era da pior saloiada pop que se escutava. Nem que o insuportável Nowhere Fast dos Fire Inc é coisa interessante de dançar. E até já temo o dia em que achem o Still Loving You dos Scorpions, a maior xaropada dos anos 80, possa ser sequer sugerido como sendo uma memória representativa da época. Pois é, nos oitentas eu estava lá e aquelas não são das melhores memórias que guardo de um tempo em que vivi intensamente as edições de novos singles e álbuns de artistas nas mais variadas frentes da invenção.
Tudo isto para quê, se o motivo deste texto é o de se falar sobre a série 13 Reasons Why? É que o presente revivalismo da cassete áudio é outro desses disparates que só convence quem não se lembra de como tinham pior som do que o dos discos (pelo que era sempre uma frustração ouvi-los naquele suporte), de como por vezes a fita saia e era esmigalhada pelos dentes dos leitores e até de como de tanto ouvidas o som perdia o viço… Pode ter piada o apelo emocional de um suporte de belo design (sim, e a cassete áudio era um belo objeto) e a arte de cada um em fazê-la uma peça sua pelo modo como usava a capa para com desenhos, recortes ou letras contar por fora o que ia lá por dentro. Mas mal a tecnologia deu um pulo, avançou e colocou em cena gravadores digitais, a velha cassete áudio num ápice virou coisa obsoleta… Se gostam de ver os filmes e séries disponíveis em qualidade HD em televisores velhos a preto e branco, OK, então avancem, porque a ideia é semelhante na perda de qualidade do registo gravado. E posto isto só espero que ninguém resolva fazer o revivalismo dos velhos cartuchos… Pois, se nem sabem o que é um cartucho acreditem que, salvo por motivos de cultura geral e conhecimento da história da música gravada, é coisa em que não precisam de pensar muito…
E porquê esta conversa toda, podem voltar a perguntar? Porque, pelo que os primeiros episódios sugerem, 13 Reasons Why parece ser pouco mais do que uma ideia oportunista para tentar levar uma nova moda hipster a um patamar muitas vezes que ajuda a escrever a história da cultura popular: a ficção. E fá-lo tentando fixar um revivalismo que, na verdade, pode desaparecer quando o próximo encantamento vintage entrar em cena… E acreditem que a cassete áudio não é bem como o vinil. Que é coisa de revivalismo também. Que é igualmente de nicho. Mas tem muito melhor som. E cruza gerações.
Baseada no livro homónimo de jay Asher, (e que fez sucesso em 2011), a série – que tem título estilizado como TH1RTEEN R3ASONS WHY (as horas que deve ter dado para se chegar esta ideia…) – nasceu como destino final de um projeto de cinema que chegou a ter Selena Gomez como possível atriz no papel da rapariga, ausente, mas que está no centro de todos os acontecimentos.
A série, que se foca em ambiente escolar contemporâneo – onde não falta o tão atual e constante trabalho de musculação dos dedos sobre os smartphones – conta em modo de revisitação as pistas que terão conduzido uma rapariga a suicídio. É em cassetes áudio que ela mesmo conta o que se passou, fazendo entregar a figuras-chave do mundo ao seu redor gravações idênticas para que todos possam, afinal, saber o que se passou e que papel terão desempenhado no processo. Como protagonista conhecemos Clay (interpretado por Dylan Minette), um amigo daquela que gravou as cassetes e que, surripiando um walkman a um colega dado a modas vintage, vai escutando, connosco, o relato.
Do outro lado do ecrã o espectador vai acompanhando a evolução de uma trama que, mesmo com cuidada produção, não deixa de ser uma variação – com a cassete áudio como tempero mais evidente na procura de uma assinatura de diferença – de tantas outras narrativas de dramas vividos nos tempos de escola. E se viram Depois das Aulas (Afterschool no original) de Antonio Campos, Elephant de Gus Van Sant ou até mesmo a série Skins, fica claro que, mesmo sem usar a modinha do momento (a cassete, pois está claro), a ficção já deu valentes passos em frente neste tipo de ambientes e com muito mais imaginação.
Em ano de regresso de Twin Peaks ao grande ecrã é natural que nos lembremos também de como havia muito mais de surpreendente, intimidante e irresistível no processo de descoberta do lado escondido da vida de Laura Palmer. Ao fazer de cada episódio a história do que se conta no lado de cada uma das cassetes a série acaba a arrumar numa estrutura demasiado rígida a sua própria evolução. E, até ver, não tem depois ginástica para alimentar com verdadeiro fulgor de surpresa o desenvolvimento dos acontecimentos. Ou seja, não basta ter cassetes e um walkman para que se faça a omelete…
“13 Reasons Why” é uma série de 13 episódios e está disponível no Netflix

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