Aborrecimento ambiental
Texto: NUNO GALOPIM
Tem sido de louvar a atitude da Deutsche Grammophon perante a abertura a novos horizontes eletrónicos… Mas na verdade nada de verdadeiramente novo numa editora que, nos anos 60 e 70, foi casa para alguns dos discos mais influentes na história da música eletrónica, assinados por Karlheinz Stockhausen, que ali apresentou peças tão marcantes como Gesang der Junglinge ou Hymnen… Mais recentemente nomes como os de Todd Levin, Osvaldo Golijov ou Max Richter mostraram como as pontes entre músicas fazem parte da invenção de um presente, representando a mais recente criação de Helène Grimaud outro exemplo de diálogo, tal como têm sido os volumes da série Re-Composed pelo qual passaram já nomes como os de Carl Craig, Moritz von Oswald ou Herbert. Não falamos aqui, portanto, nem da (igualmente louvável) abertura de catálogo a nomes da música popular – como Tori Amos ou, mais recentemente, Jarvis Cocker – ou a expressões de música de câmara dos trabalhos de compositores com day job em terrenos pop como Johnny Greenwood (Radiohead), Richard Reed Parry (Arcade Fire) ou Bryce Dessner (The National). Falamos em concreto com o trabalho nos terrenos da criação musical com eletrónicas. Que, contudo, somam já dois valentes tropeções que em nada se comparam nem às visões acima citadas nem aos melhores exemplos de criação nesta área (com nomes que vão de um Arca a um Pantha du Prince) que justificavam bem mais uma vida nos espaços deste catálogo que duas das suas mais recentes apostas.
Quatro anos depois do inconsequente e ensosso Opus do alemão Schiller (cruzando variações de linguagens ambient amestradas e adocicadas com abordagens a Satie ou Tchaikovsky), que então abria a etiqueta Panorama, um novo engano surge apresentado como se de coisa exploratória se tratasse. Assinado pela dupla italiana Tale of Us – formada por Matteo Milleri e Carmine Conte – o álbum Endless tem tudo menos novas experiências sónicas (como se lê no site da editora). Se bem que tecnicamente irrepreensível, é contudo uma sucessão de aborrecidos bocejos para eletrónicas e piano que podem piscar o olho a vários experimentadores (nomeadamente Brian Eno), mas que no fim parece sempre mais coisa de redução de ideias a denominadores comuns de fácil digestão, apesar do ar moderno e sério da coisa… Sim, e o disco é como o título sugere… Parece que nunca mais acaba.
“Endless” da dupla Tale of Us está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Deutsche Grammophon ★★


Deixe um comentário