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A vida é feita de pequenos nadas

Depois de ‘Temporada de Patos’ a segunda longa-metragem do mexicano Fernando Eimbicke levou-nos até ‘Lake Tahoe’, um percurso de poucas palavras e poucas gentes, numa cidade onde pouco parece acontecer.

Manhã cedo, numa pequena localidade mexicana, imaginamos que longe de uma qualquer grande cidade. Um jovem, ao volante, choca o carro de família contra um poste. E por mais que tente, o carro não sai dali… Àquela hora as ruas estão quase sem ninguém, as garagens e oficinas fechadas e, se abertas, sem gente com aparente desejo de ajudar. Com uma cadência suave e sob uma luz que não esconde o dia quente que está a nascer, foi assim que Fernando Eimbicke juntou os planos de abertura do filme que, em 2008, apresentou como o sucessor do aplaudido Temporada de Patos, de 2004.

Lake Tahoe é um filme em que pouco ou quase nada parece acontecer. É a pé que o jovem Juan parte em busca de auxílio, a câmara seguindo-o quase sempre do outro lado da rua, muitos dos (espantosos) enquadramentos explorando assim o movimento dos seus passos frente a casas de paredes pintadas, muitas delas ostentando palavras anunciando nomes de lojas ou de instituições que ali moram.
Com uma enorme economia de discurso acompanhamos os (poucos) encontros de Juan ao longo de um dia. Um mecânico de automóveis mais amigo de descansar que de trabalhar, e que toma o pequeno almoço juntamente com o cão (um enorme boxer). Uma empregada de uma loja de peças e acessórios que faz música e deu ao filho o nome Fidel. Um jovem mecânico fã de artes marciais. E mãe deste último, que faz de uma refeição um espaço para incursões suas pela fé e devoção que ditam todos momentos do seu quotidiano. Aos estranhos que vai conhecendo, uns mais de passagem que outros, e com os quais, mesmo entre poucas conversas, ganha novas experiências, Juan faz deste seu dia um palco para fugazes passagens pela sua casa de família, onde a mãe e o irmão tentam, como ele, aprender a viver depois de uma perda maior. É de pequenos nada que vive o dia de Juan. E é desse dia que vive Lake Tahoe.

O título, Lake Tahoe (um conhecido resort turístico nos EUA), decorre do que parece uma citação wellesiana. É assim uma espécie de “rosebud”, que surge num autocolante que a dada altura vemos no carro que é motor para tudo o que aqui vemos.

Ao invés desse seu primeiro filme, Lake Tahoe não chegou às nossas salas de cinema nem sequer ao circuito de home vídeo, mantendo-se como um título relativamente invisível entre nós. Um título a (re)descobrir, sobretudo recomendado aos apreciadores desta recente geração de novos realizadores da América Latina. – Nuno Galopim

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