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‘Boyhood’, de Richard Linklater

Filmado ao longo de 12 anos, ‘Boyhood’, de Richard Linklater, com Ellar Coltrane, Ethan Hawke e Patricia Arquette, foi o grande vencedor da edição 2015 dos Globos de Ouro.

Muito se tem falado, a propósito do mais recente filme de Richard Linklater, da sua ousadia formal, dos seus 12 anos de rodagem, discurso que quase oblitera a riqueza, contradição e simplicidade que o filme acarreta e mostra. Os elogios tecidos em relação ao arrojo de Boyhood criaram uma certa distração em relação àquilo que o torna tão especial: a simplicidade do(s) gesto(s). Um compromisso, do realizador, dos atores e da equipa técnica.

O nível de naturalismo alcançado pelo filme é fruto não só dos 12 anos de rodagem, mas do olhar atento de Linklater, bem como da valorização daquela que é a matéria principal dos seus filmes: os atores.

Em Before Sunrise/Before Sunset eram dois, também jovens: Julie Delpy e Ethan Hawke (e quase dá para estabelecer uma ponte entre o idealismo e a falta de rumo da personagem de Hawke aí o despontar de Mason, no limiar da idade adulta, já quase no final de Boyhood). Também nesses dois filmes encontrávamos uma narrativa simples, ancorada nos diálogos e nas personagens. A vida a ser capturada, quase que por acidente, numa câmara. No segundo, encontrávamos já experimentação com o tempo: os cerca de 80 minutos da sua duração correspondem a cerca de 80 minutos de encontro entre as personagens. O filme passava sem que déssemos por isso. Era a emoção do reencontro com as, e das, personagens que se tinham separado sem a expectativa desse reencontro.
Em Boyhood, Linklater levou a experimentação com o tempo mais longe e propôs-se a filmar, com os mesmos atores, o crescimento das suas personagens, em tempo real, ao longo de 12 anos. Boyhood é um filme de crescimento, não só de Mason, mas também do pai, da mãe, da irmã. E um documento do envelhecimento/crescimento dos atores (e do realizador também): em vários momentos sentimos que tem algo de biográfico.

A aparente “banalidade” é a sua maior força. Linklater e os atores juntaram uma série de “episódios” e momentos que marcam o crescimento de uma criança, aqueles momentos formativos que só ganham sentido (e forma) com o tempo. É uma infância/adolescência americana, as marcas culturais estão lá: episódios históricos, os factos sociais, as dinâmicas familiares, as referências à cultura popular. É uma infância/adolescência universal: o aborrecimento e maravilhamento das primeiras descobertas, as primeiras desilusões e as questões sem resposta, a descoberta das emoções contraditórias, a procura das afinidades e da forma de olhar para o mundo.

Cada reencontro com as personagens, cada salto temporal, emocionam em crescendo. O dispositivo quase que é diminuído pelo filme. A ousadia formal é posta ao serviço da história que se quer contar. O olhar é simples e desarma, Mason sente, aprende e cresce. E o espectador, sente, aprende e cresce com ele, como se fosse a primeira vez. Tanta dedicação, para mostrar apenas isto, que é tudo: o tempo a passar, as marcas que isso deixa, o que se inscreve, e o que se esquece. E começa tudo com a inocência a olhar para o céu azul, e acaba com a esperança apesar do desencanto a olhar para o horizonte. O que se mostrou entretanto, foi muito e verdadeiro, contraditório e essencial. – Diogo Seno

 

Outras opiniões:

Se bem que muito do discurso que se tem feito (e fará) sobre o novo filme de Richard Linklater vá concentrar atenções no facto de ter sido criado ao longo de uma dúzia de anos, reunindo regularmente o elenco e equipa técnica para criar uma história do tempo que passa, a verdade é que de modo algum Boyhood – que entre nós estreia com o subtítulo Momentos de Uma Vida – se esgota no dispositivo que o serve.

A sensação de passagem do tempo, que a rodagem efetuada ao longo desse período acaba por traduzir com um sentido de realismo que os corpos tão naturalmente espelham não é o objeto, mas o contexto, no qual acompanhamos uma história familiar, no fundo nada mais senão a matéria de que são feitas algumas das mais notáveis ficções na escrita norte-americana (não tem sido essa a essência que tanto valoriza a aclamação dos romances de um Jonathan Franzen?)… E, assim sendo, era uma vez o jovem Mason (brilhantemente interpretado por Ellar Coltrane), a irmã, pais, amigos e mundo à sua volta, desde os dias em que o vão buscar à escola ao momento de chegada à Universidade…

Como forma de captar relações com o tempo que passa, o filme integra sucessivas referências a grandes fenómenos da cultura popular que, como um calendário, ajudam assim a fixar relações que a história das personagens e o seu espaço desenvolve assim com o contexto maior no qual tudo acontece.

O tempo dá aqui às personagens uma rara hipótese para se definirem, talharem e, como todos nós, se adaptar e mudar. O arco narrativo serve assim um olhar que não apenas serve o acompanhar do crescimento do protagonista, mas também daqueles que o rodeiam. A candura com que se acompanha o envelhecimento – de todos – contrasta saudavelmente com um tempo de satisfações rápidas e “likes” automáticos. A vida, apesar de tudo, é assim. Acontece a 24 horas por dia, 365 dias por ano (a cada quatro juntando mais um). E, mais que na trilogia “Before” do mesmo Linklater – onde uma noção semelhante de passagem do tempo se projetava em três episódios rodados num arco de 18 anos – aqui experimentamos, numa montagem cronologicamente arrumada, o sabor do tempo de uma forma tranquila, mas sempre irrepetível e sem volta atrás. – Nuno Galopim

 

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