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Os gritos que ninguém parecia querer ouvir

Recentemente distinguido nos Globos de Ouro, o telefilme da HBO ‘Um Coração Normal’ evoca os primeiros passos da luta política contra a sida na América dos anos 80.

Eram como gritos mudos, porque ninguém parecia que os ouvia. Ou simplesmente ignorava. Quando em 1981 surge nas páginas de um jornal a notícia de um “cancro gay” que matara 41 pessoas e, em 1982, os diagnósticos e mortes em cada vez maior número davam conta de uma epidemia alarmante, as primeiras movimentações de luta contra a doença e de tentativa de alerta dos poderes públicos para a necessidade de apoiar projetos de investigação vieram da parte de grupos de ativistas que, se por um lado, viam amigos e entes queridos a sucumbir ao seu redor, por outro enfrentavam um mutismo e aparente indiferença oficial que, na verdade, durou anos. Larry Kramer, que depois de integrar um desses primeiros grupos de apoio a doentes e de luta contra a doença acabaria por fundar mais tarde o mais incisivo Act Up, estava lá. A sua história e dos que o rodeavam contou-a numa peça de teatro que, recentemente, conheceu espantosa adaptação homónima a telefilme via HBO, com um elenco onde se destacam as figuras de Julia Roberts e Mark Ruffalo, sob realização de Ryan Murphy e argumento adaptado pelo próprio Kramer.

Num arco narrativo que se estende entre 1981 e 1984, antes portanto da mais mediatizada morte de Rock Hudson e da primeira menção da palavra “sida” num discurso de Reagan (então Presidente), Um Coração Normal é ao mesmo tempo uma história que respira uma trágica dimensão humana mas transporta na medula a carga política de uma batalha de nervos e força, travada contra o silêncio de políticos e, numa dada etapa, dos próprios media.

Apesar da grande visibilidade que o cinema deu à história da doença, o espaço da ficção televisiva foi na verdade o primeiro a olhá-la de frente no histórico An Early Frost, de John Erman, transmitido pela NBC pouco mais de um mês após a morte de Rock Hudson (e que me lembro de ver, algum tempo depois, na TV portuguesa). A história da representação da sida no pequeno ecrã tem contudo na HBO uma das suas mais importantes fontes de produção, incluindo títulos como E a Banda Continua a Tocar, de Roger Spottiswood (1993) ou o magnífico Anjos na América, minissérie (baseada na peça de teatro com o mesmo título de Tony Kushner) na verdade apresentada nos próprios créditos como “um filme” de Mike Nichols. Um Coração Normal é assim mais um episódio numa história que não pode deixar de continuar a ser contada. – Nuno Galopim

 

“Um Coração Normal”, de Ryan Murphy

Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts

Argumento: Larry Kramer

DVD, NOS ( 4 / 4)

 

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