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Petrenko conclui integral sinfónica de Shostakovich na Naxos

Quando, em 2006, tomou o lugar de maestro principal da Liverpool Philharmonic Orchestra (instituição histórica, fundada em 1840), o jovem russo Vasily Petrenko tinha então apenas 29 anos. Era o mais jovem maestro que alguma vez assumira aquele lugar e durante os primeiros anos de ligação a esta “casa” britânica veria não apenas a chegada de um relacionamento regular da orquestra com a Classic FM (um acordo de transmissões em direto levou assim o programa de vários concertos para além da sala) como conheceu natural foco de atenções quando, em 2008, a cidade foi Capital Europeia da Cultura. Foi contudo como resultado de de um esforço continuado de trabalho com a orquestra que Petrenko a devolveu a um patamar de maior visibilidade. O sucesso desse esforço deve-se em parte a opções de programação que se transformaram depois numa discografia em construção. E aí a integral sinfónica de Dimitri Shostakovich (1906-1975) registada e editada pela Naxos, e que teve primeiro “episódio” em 2009, teve um papel determinante. Ao cabo de uma série de edições, a integral chega agora ao fim, com o lançamento de um disco com uma gravação da Sinfonia Nº 13 ‘Babi Yar’, captada no Liverpool Philharmonic Hall entre os dias 27 e 29 de setembro de 2013.

Composta e estreada imediatamente após a Sinfonia Nº 12, que evocava a figura de Lenine (apresentam respetivamente os números de opus 112 e 113), a décima terceira das 15 sinfonias de Shostakovich ajuda a definir com a anterior um díptico inspirado por momentos da história russa do século XX. Usando palavras de um poema de Yevgeny Yevtushenko publicado em 1961 na Literaturnaya Gazeta, a Sinfonia Nº 13 reflete sobre o anti-semitismo, recordando por um lado os massacres em Babi Yar (uma ravina perto de Kiev, na Ucrânia) em setembro de 1941, havendo alinda alusões ao “caso” Dreyfus, a Anne Frank ou o pogrom em Bialystok em 1906 e, depois, em situações menos fechadas no tempo e no espaço, sobre relações entre a sociedade e o indivíduo.

E estreia, que teve lugar em Moscovo em dezembro de 1962 depois de algumas recusas (nomeadamente do cantor solista originalmente desejado pelo compositor ou maestro que dirigira as últimas sete estreias de obras sinfónicas suas), refletiu algum desconforto oficial. Por um lado foi cancelada uma transmissão televisiva desse momento como foi pedido que o poema fosse alterado de modo a contar que, ao lado dos mais de 30 mil judeus, em Babi Yar tinham também morrido russos e ucranianos às mãos dos alemães. Yevtushenko de facto alterou oito versos, sem que tal implicasse grandes mudanças na música. Todavia, depois da queda da URSS, as interpretações retomaram o texto original, tal como o têm feito gravações em disco, como esta o faz uma vez mais.

Esta é uma obra com uma importante presença vocal, tendo como solista um baixo e exigindo a presença de um coro masculino de 40 a 100 vozes. Para esta gravação Petrenko contou com a voz de Alexander Vinogradov e também com o coro da Huddersfield Choral Society.

Houve, depois da estreia em Moscovo, várias interpretações na URSS. Apesar de nunca proibida, a apresentação pública da Sinfonia Nº 13 não era contudo encoradaja, como explica Richard Whitehouse no booklet que acompanha esta edição. A sua estreia no Ocidente teve lugar em Filadélfia (EUA) em 1970, sob direção de Eugene Ormandy. As primeiras edições em disco resultaram de gravações de apresentações ao vivo, tendo surgido a estreia em registo de estúdio em setembro de 1965, com Kondrashin (que assegurara a primeira apresentação, em 1962), em Moscovo. Houve depois importantes gravações com Ormandy (1970) e Previn (1979). Esta nova gravação, dirigida por Petrenko, assinala não apenas mais uma importante abordagem a esta obra como encerra uma integral que refirma, nesta aurora de um novo milénio, a memória do compositor como um dos maiores sinfonistas do século XX. – Nuno Galopim

 

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