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‘Ad astra per alas porci’

Por Carlos Conceição

Eu desculpei-te o filme da ceguinha porque, depois da Palma de Ouro, claramente era eu que tinha mau gosto e estava em desacordo com o trend pós-Andersen da desgraçada menina dos fósforos a quem tudo acontece. Desculpei e optei por não me pronunciar, até esquecer, tal é a dor que aquilo provoca – por um lado a dor existencial de ver a coitada definhar nas mãos dos maus, por outro lado a dor de cabeça que a câmara à mão normalmente me causa. Foi de tal maneira triste, essa experiência, que até me desencantei com o prévio filme da escocesa que fala com o Senhor. E subitamente, nem a Europa tinha relevos nem o Crime tinha Elemento. Flat face down. Passei a estar de pé atrás contigo e com os teus filmes. Mas, daí, o que importa a opinião de um espectador que descobre que se enganou, quando o próprio autor insiste em provar que toda a gente está enganada?

Depois foste tu que entraste em espiral de decepção com o mundo, com as pessoas, com o cinema – e a tua obra reflecte isso. O escape sempre apontado às protagonistas passivas, sofredoras dos mais graves escárnios, mulheres masoquistas que vivem em palcos de teatro, que atravessam portas sem paredes nem telhados enquanto recuperam de divórcios com o Tom Cruise através de relações turbulentas com o teu espírito indomável e manipulador. Não deixa de ser admirável, esse franco exibicionismo que vem do verniz pueril do artista atormentado. Excêntrico porque sim. Bravo! A arte de não deixar ninguém indiferente. A arte de só poder andar de limousine. A arte de dirigir actores por walkie talkie, fechado numa roulote. Mas, e os filmes? O que seria deles sem essa tua persona bizarra, digna de gerar uma action-figure que eu possa coleccionar de cada vez que comer uma happy meal?

Há uns anos, quase te redimiste. O teu filme da cabana na floresta, com a rapariga e o psicólogo a quem o filho morre, exala vapores de génio que me estimulam a sensibilidade pessoal mais secreta. É possível que esses vapores sejam de ordem química e que isso passe para o espectador de forma directa, num rio de paroxerina, escitalopram, sertralina, fluxetina, cilalopram, agomelatrina, trazodona, bushmills e coca. Mas não tenho preconceitos em relação a isso. Seja Prozac, Verotina, Lexapro, Sedopan, Ludiomil, Tolvon, Daforin, Aropax, Moratus, Praxerina, Donaren, Neulox ou Cipramil, o que conta é que o filme se sinta. E se qualquer desses químicos te impedia, eventualmente, de sentir o que quer que fosse mais que uma profunda tristeza e desalento, confesso-te que esse filme senti-o eu – e bem. Aproveito a ocasião para te agradecer o plano em que a raposa diz chaos reigns. Sei que não era, mas parecia um recado para mim. Obrigado. Quando no filme seguinte te retratas de forma tão honesta e realista através de uma noiva loira cheia de dúvidas, a redenção completou-se. Visualmente, o filme lembra-me um anúncio a sabonete e confesso que a câmara-lenta podia ter ficado na floresta do outro. Mas percebo. É conceptual, certo? É tipo: a desgraça a acontecer no meio paraíso. ‘Tou a ver. Muito bela a espiral de decrepitude em que te colocas, com a protagonista quase incapaz de mijar sozinha, mais a metáfora do planeta em rota de colisão com a terra. A um certo momento é cansativa a reiteração de que sofreste muito, de que passaste as passas do Algarve com a agravante de as teres passado em Copenhaga. O filme faz suspirar. De beleza. De tédio. E o título não podia ser mais apropriado. O que me leva, finalmente, à razão de te escrever este texto. Por mais que quisesse, não tenho nada a dizer do teu mais recente trabalho que seria tão insuportável numa versão curta e censurada quanto é em dois volumes e nas suas versões explicita e não-explicita. Tenho tido algum cuidado dietético com o que vejo e confesso-te que há muito não via um filme que me parecesse tão vazio, não “toma-lá” e tão grotesco quanto esta tua auto-nomeada saga cujo título é tão rotulativo que chega a fazer pensar se Tetsuo precisava de ter a tradução The Iron Man, como se os espectadores não reconhecessem bosta quando a pisam. É este o retrato de um artista enquanto velho mimado? Mostrar a sua essência mais elementar na declaração dissimulada de que todo o sadismo, o gosto pelo choque e a misoginia sobre as personagens ao longo de quase 30 anos se resumem, finalmente, ao desejo antigo de fazer um filme porno? A tua fama de te pensares como Deus recebe, enfim, uma compreensão clara. Eu queria gostar, ou pelo menos ver escorrer algum sumo ao apertar os dois volumes do filme entre cópias encadernadas de Freud e de Darwin. Mas a boa vontade não pode ser tão unilateral. O esforço de te defender precisa de um payoff. Não o farei, não gastarei um minuto do meu tempo a tentar perceber a origem de um impulso masturbativo que me faz perder cinco horas de vida, se a compensação futura não for capaz de estar acima do anúncio a sabonete previamente mencionado. É isto que tu fazes quando recuperas de uma depressão? Ou trata-se de mais um grito de socorro? Desculpa que te diga mas não posso acudir a um pedido que não entendo. Este teu filme, guarda-o. Não te volto a dar oportunidades de cinco horas. Que drama este do “cinema de autor”, do realizador como centro da atenção que faz com que nenhum filme possa ser visto isoladamente, mas sempre em comparação com o anterior. É este o preço do teu carisma. Fizeste uma excelente Medeia, há muito tempo. Mas agora fizeste este… que pena! Eu nem sequer tenho nada de analítico a dizer sobre os dois volumes de nada que me deste. Nada que se assemelhe a uma crítica, nem que se possa publicar ou partilhar. A minha crítica é a ti. E ela nem sequer se pode alicerçar num ataque pessoal porque aí estaríamos a jogar na mesma moeda. No fundo é mais um desabafo que outra coisa. No fundo isto é mais sobre mim do que outra coisa: a decepção de um espectador que quer repetidas vezes gostar dos filmes de um cineasta que o priva do prazer de uma experiência completa por ser um egoísta. A decepção de um espectador que, como todos os espectadores no novo milénio, também se vê como Deus e que, por isso, quer à força que tu te encaixes nas suas expectativas. É bem possível que seja esse o Elemento do teu Crime: vingares por via da decepção. Marcar com as unhas. Fazer sonhar com os olhos, os lábios, os punhos dessas personagens que amas ao ponto de matar. “I kill!”, tu mesmo respondias, num filme, à pergunta “What do you do?”. Matas devagar, para sobreviver, à tona da água gelada do tanque sem vida do jardim em Copenhaga onde te vi a passear o cão, numa escura tarde de Novembro. Matas pelas costas.

Não és o meu cineasta preferido, nem de perto nem de longe. Mas és um espertalhão que sabe por as pessoas a pensar. A pensar na morte – na tua, na nossa. Tirava-te o chapéu por isso. Mas já não vale a pena. Está frio – e eu não uso chapéu.

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