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Cinco discos para regressar a Jean-Michel Jarre

Cinco álbuns do músico francês, originalmente editados entre 1984 e 1993, recordam-nos pérolas esquecidas e alguns momentos menos inspirados da obra de um pioneiro das electrónicas.

O sucesso por vezes pode ser mais problema que uma ajuda… E tantas vezes a história da música popular nos mostrou já como a subida de alguém a um outro patamar de “fama” funciona para alguns como condição suficiente para desligar o som dos ouvidos e ligar em seu lugar o sinal luminoso do preconceito. Jean-Michel Jarre, que desde sempre dividiu opiniões (o que é sempre bom), ganhou visibilidade entre 1976 e 78 com dois álbuns que, servindo-se de uma lógica de construção diretamente herdada do progressivo, experimentavam novos caminhos (melódicos, narrativos e cenográficos) para as electrónicas num quadro claramente mais próximo da pop que dos berços em que ele mesmo a começara a estudar (nos dias em que foi aluno de Pierre Schaffer). Oxygène (1976) e Equinoxe (1978) juntaram-se a discos pioneiros seus contemporâneos e ajudaram a abrir caminho para a generalização do uso das electrónicas num contexto pop. Quando, em 1981, edita Les Chants Magnétiques (editado fora de França como Magnetic Fields), opta por manter uma estrutura comum no corpo do disco, encaminhando contudo várias das “partes” rumo a modelos pop onde a repetição e simplificação de linhas e estruturas acaba por gerar um álbum sem o fulgor das visões dos antecessores, o impacte da sonoridade num tempo em que a primeira geração pop electrónica somava já êxitos nas tabelas de vendas colocando-o entre a lista de sabores do momento. O tom açucarado de alguns momentos do álbum (que aprofunda algumas sugestões já antes lançadas em Equinoxe) valeu a Jean Michel Jarre o ceticismo de parte da crítica. E convenhamos que Les Chants Magnetiques está uns furos abaixo do que até então Jarre nos mostrara. A faceta mais popular do músico ganhou entretanto novos focos de visibilidade com o impacte europeu de um álbum (e um documentário televisivo – que na altura foi exibido na RTP) sobre a digressão de Jarre na China e, depois, com o “caso” Music For Supermarkets, um álbum (de 1983) cujos masters foram destruídos após a prensagem de um único vinil, que foi vendido em leilão como se de uma pintura se tratasse. Era de um Jean-Michel Jarre famoso, e sem um disco verdadeiramente estimulante há já seis anos, que se falava quando chegou Zoolook. E, com mais preconceitos ativos que com ouvidos atentos, muitos passaram pelo disco tomando-o como mais um, talvez mesmo dizendo “não presta” sem notar o que ali poderia estar a acontecer. Naturalmente há, como houve e haverá, quem não goste. Mas isso é outra coisa. Aqui não falo de gosto, mas de como tantas vezes não se ouve quando o preconceito está em modo “on” (tanto que George Michael, anos depois, editaria mesmo um álbum a que daria por título Listen Without Prejudice).

Passaram 30 anos e os álbuns de 1976 e 78 de Jean-Michel Jarre conhecem hoje aquele estatuto de maior respeito que (merecidamente) damos a quem desempenhou esforços pioneiros em algo importante. Por muito inconsequente que, de facto, seja grande parte da sua discografia posterior a 1980 a verdade é que convém não deixar Zoolook fora da sua lista de grandes discos. Integrado numa campanha de reedições (que chega aos escaparates a partir de segunda-feira), Zoolook, agora devidamente remasterizado, representa um episódio de exploração de potencialidades de novas máquinas (nomeadamente os samplers e um batalhão de novos teclados), ao mesmo tempo que espelha um desejo do músico em encontrar formas de usar a voz e as línguas do mundo (passando, entre outros, por elementos “samplados” em aborígene, afegão, inuit, francês, holandês, alemão, húngaro, indiano, malaio, tibetano ou sueco). Esgotando em Zooloogique (que chegou a ser editado como single) o apelo pop de Magnetic Fields 2, Zoolook é um álbum diferente na estrutura, propondo ao invés de um grande-todo, uma lógica de obra feita de faixas distintas entre si, as ferramentas de trabalho usadas e a presença protagonista das vozes (muitas vezes processadas) assegurando a unidade. O disco, que recupera (com algumas alterações), três fragmentos de Music For Supermarkets, que foi dos primeiros a ser gravado com tecnologia digital e que conta com nomes como os de Laurie Anderson (voz) e Adrian Blew (guitarras) no elenco, é uma pequena pérola esquecida das eltrónicas dos oitentas que agora se recupera, numa versão que retoma o alinhamento original (e não faixas remisturadas como algumas reedições chegaram a usar) de 1984.

Zoolook é um dos cinco álbuns de Jean-Michel Jarre que, com som remasterizado, conhecem reedição neste início de ano. Editado em 1986 Rendez-Vous é um disco que retoma a linha de aproximação a soluções mais ligeiras de Les Chants Magnetiques, fazendo mesmo do desinteressante Rendez Vous IV um dos momentos de maior sucesso pop da sua carreira. Disco menor, gere sonoridades e soluções numa lógica mais segura que ousada (longe de Zoolook, portanto), tendo ficado na história – apesar do impacte no mercado – mais pela associação a um desafio tecnológico que pela música. Foi na verdade um desafio que acabou em tragédia. A parte VI do disco, com o subtítulo Ron’s Piece, nascera de uma ideia de colaboração com o astronauta e saxofonista Ron Mcnair, que deveria ter tocado a partir do espaço. Um dos tripulantes do Challenger, Ron morreu (juntamente com a restante tripulação) na explosão que destruiu a nave pouco depois da descolagem, servindo assim o disco (e o concerto em Houston a 5 de abril) como homenagem aos que ali perderam a vida.

Editado dois anos depois Revolutions procurava desbravar novos terrenos, por um lado explorando uma noção de linguagem industrial (na suite Industrial Revolutions), por outro escutando ecos de músicas outras geografias. Japão, África do Sul e o Médio Oriente definem caminhos diferentes dos habituais na música de Jarre, assim como o faz a colaboração com Hank Marvin (em London Kid. Mas, na verdade, e como alguém chegou a escrever numa crítica, de revolucionário por aqui não há nada.

Em 1990 Waiting For Cousteau – criado como homenagem ao oceanógrafo seu conterrâneo Jacques Cousteau – assinala o mais desafiante conjunto de propostas de Jean-Michel Jarre desde Zoolook. O disco divide-se em duas partes distintas. A primeira, com o título Calypso (o nome do navio oceanográfico de Cousteau), é um tríptico que abre com uma alusão ao calor e cores das steel bands caribenhas e navega depois sob a luminosidade dos mares quentes. A segunda parte, com o título do álbum, é uma peça de 46 minutos, que parte de uma noção de música ambiental em sintonia com o legado das visões de Brian Eno em finais dos anos 70, mantendo contudo a sugestão permanente de estarmos a escutar acontecimentos na água, agora todavia em mergulhos mais profundos, mais longos e lentos, com a luz do dia já distante, talvez mesmo impossível de detectar…

Chronology, de 1993, e que encerra este lote de reedições, assinalou uma vontade de reencontrar o modelo conceptual experimentado nos álbuns da segunda metade dos anos 70. Sucessor natural de Oxygéne e Equinoxe, traduz um reencontro com sonoridades da época e formas de construção que recuperam em vários instantes sinais de fuga aos padrões de repetição ao jeito da canção pop que caracterizaram parte da obra do músico desde a alvorada dos anos 80. Apesar da solenidade cénica da peça de abertura, o disco não deixa contudo de fechar a porta ao antigo e recorrente encantamento que Jarre tem pela pop (e nada contra, diga-se). Curiosa é a forma como aborda esses caminhos, seja por uma via de diálogo com heranças do eurodisco à la Pet Shop Boys (como escutamos em Chronology 4), seja pela integração de elementos rítmicos da cultura hip hop (em Chronology 8), merecendo citação ainda um reencontro com a sua própria forma de encarar o electro (ao jeito dos dias de Equinoxe) em Chronology 6.

Há talvez motivos para reencontrar alguns dos discos de Jean-Michel Jarre. Os cultores do space disco e algumas formas atuais com gosto pela evocação das sonoridades dos teclados analógicos têm, entre este lote, razões para não deixar esta obra reduzida à memória do aparato das mega-produções de concertos com que tantas vezes é lembrada a música (e a figura) de Jean-Michel Jarre. – Nuno Galopim

Todos os álbuns são de Jean Michel Jarre

“Zoolook” (1984)
Sony Music
( 4 / 5 )

“Rendez-Vous” (1986)
Sony Music
( 2 / 5 )

“Revolutions” (1988)
Sony Music
( 2 / 5 )

“Waiting For Cousteau” (1990)
Sony Music
( 3 / 5 )

“Chronology” (1993)
Sony Music
( 3 / 5 )

6 Comments on Cinco discos para regressar a Jean-Michel Jarre

  1. Critica muito legal. Sou do fã clube brasileiro e temos um site em lingua portuguesa do artista.
    http://www.jarrefan.com.br

    [ ]´s

    Ricardo Melo

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  2. ALEXSANDRO NEVES // Março 14, 2017 às 2:01 am // Responder

    Não concordo com sua crítica de rendez vous. O álbum é uma verdadeira sinfonia eletrônica do início ao fim, só destoando em Rendez Vous IV, embora eu goste da pegada pop dessa faixa.

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  3. Escutei este album de 1984 – ZOOLOOK versao em vinyl em 24 bits – 96 khz e o som parece uma orquestra viva… fiquei abismado… já na versão digital o som também é bom, principalmente nas dinâmicas mas perece frio e seco, sem vida… e isto me deixou preocupado, muito porque a alguns anos vendi toda minha coleção de jarre em vinyl pois achava que tendo os cds dele já tava bom. Será que fiz besteira… estou agora a baixar toda a discografia em vinyl – pois tenho ela toda em digital para ver pra crer. Será que foi impressão minha ou meu ouvido me traiu, as versões me vinys de albuns produzidas nos anos 80/90 sao melhores que as versões em cd´s. Gostaria da opinião (não entrando no mérito audio digital x analógico com teorias) de quem ouviu os dois meios e o que achou? tem muitos comentários de experts em áudio que com todo respeito aqui não vem ao caso, estou falando de experiências sonoras, como tomar um café numa cafeteria e depois tentar fazer o mesmo em casa, não será o mesmo. O vinyl hoje de gravacoes em master digitais iriam soar melhor também? Uma grande pulga no meu ouvido… este que é bem treinado.

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    • Nunca me desfiz dos meus discos em vinil de Jarre. E até ao final dos anos 80 sempre os ouvi em LP… Comprei depois os CD. Mas discos como o Oxygène, Equinoxe e este Zoolook soam melhor no vinil… Não sou audiófilo. Gosto é de ouvir a música. Mas na versão em LP em vinil o Jarre de 70 e 80 soa bem melhor.

      Liked by 1 person

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