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Gonçalo M. Tavares: um olhar sobre o poder e o absurdo

‘Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai’ marca o regresso do escritor à formula que maneja melhor: o romance. E confirma que na galáxia dos seus contemporâneos ele é um dos únicos escritores portugueses que questiona o âmago das crises do nosso tempo.

Premiado, bajulado, amado e desprezado em pouco mais de uma década Gonçalo M. Tavares conseguiu quase tudo o que um escritor deseja: é publicado, é reconhecido, é traduzido e agraciado noutros países, noutras línguas. Contudo, sob o folclore mediático poucos se têm atrevido a ler a face política dos seus textos, sobretudo dos seus romances e ensaios que se deixam todos eles atravessar pela questão do Poder e a forma como ele se exerce e se dissemina nas sociedades actuais.

Hanna tem 14 anos, sofre de Trissomia 21 e está (aparentemente) perdida numa cidade e num tempo sem nome. Procura o pai mas está proibida de o nomear. Traz consigo uma caixa cheia de cartões onde se lêem normas e comportamentos a aprender e treinar. Coisas aparentemente banais como vestir uma camisola, lavar os dentes ou apertar a tampa de um frasco. Coisas que se aprendem por imitação mas que são na verdade regras estritas que não ousamos violar sob o perigo de sermos considerados anormais e loucos. Hanna carrega consigo, numa caixa de madeira, as regras que organizam uma sociedade inteira e que ninguém questiona. As regras que criam aquilo a que e chama normalidade mas que, ao mesmo tempo, são uma forma perversa de controlo dos indivíduos. Hanna não é apenas símbolo da diferença genética. Hanna é a metáfora de todos nós, frágeis e perdidos num mundo que nos deu uma caixa de regras para aprendermos e que nos pune se não as cumprirmos.

Marius encontra Hanna, um encontro improvável, algures numa rua de um país sem nome na Europa central. Tão insólito como este encontro é a viagem que juntos vão empreender por ruas secundárias, viagens de comboio sem destino, casas de homens bizarros, quartos de hotel com nomes de campos de extermínio nazi. Uma viagem que não visa um qualquer destino heróico ou fatídico mas tão só mostrar através de uma trama de experiências inesperadas a face a uma Europa que colapsa por repetir compulsivamente os mesmos erros. O maior deles? O esquecimento.

Em Outubro, GMT, publicou, na editorial Caminho, Os Velhos Também Querem Viver, onde glosa a tragédia Alceste de Eurípides, colocando a acção na guerra civil de estilhaçou a ex-Jugoslávia nos anos 90 do século XX. Também aqui o escritor nos coloca face a um cenário de caos e violência onde alguém quebra as regras instituídas tornando o seu acto um acto político. Neste caso é Alceste que morre em vez do marido Admeto. E com este pequeno livro GMT mostra-nos a actualidade das Tragédias clássicas e a forma como elas nos fornecem, há milénios, as ferramentas mais potentes para ler o mundo. Mostra-nos ainda que a vida de um velho não é menos importante que a de um jovem e de que a morte de um homem não é mais relevante que a de uma mulher. Com isto o autor toca num dos nódulos da crise das sociedades modernas: a apologia da força e da juventude em detrimento da sabedoria, da experiência e da memória.

Em A menina está perdida… o autor volta a propor uma reflexão em torno da normalidade e do absurdo através de uma galeria de homens e mulheres bizarros, de uma heroína deficiente e de um herói em fuga. Tal como nos seus outros romances da tetralogia O Reino, GMT cria uma ambiência de estranhamento com as suas personagens psicóticas, obsessivas, desligadas do mundo e, por isso mesmo, criadoras compulsivas de regras, taxonomias, listas classificativas, coleções infinitas de objectos improváveis…

Estas personagens excêntricas não são um floreado surperfluo para entreter leitores, nem são uma apologia romântica da loucura mas sim uma forma de dar a ver levar o leitor a um questionamento das formas de poder condicionam a vida, o imaginário e as experiências das pessoas tidas como “normais”. Mas que normalidade é esta? Ao colocar os leitores de frente ao absurdo das personagens GMT abre a porta para um questionamento colectivo do que é a “normalidade” e das instâncias que a determinam como tal.

Hanna em fuga de um qualquer centro de educação para crianças deficientes, Marius em fuga de qualquer coisa que nunca saberemos são como pequenos peixes que rompem a rede lançada para os apanhar: a rede da normalização. A mesma que nos faz olhar para o mundo sempre a partir do mesmo ponto de vista, que nos faz olhar sempre para o centro das imagens e não para as suas zonas periféricas, que não nos treina os olhos e os sentidos para perceber o invisível e com isso nos vai apagando a memória e a individualidade.

Neste romance que é menos sobre o Século e mais sobre a grande marcha humana onde o destino de cada um é descobrir-se como afluente da longa memória do mundo, insubstituível como experiência e como testemunho Gonçalo M. Tavares consegue um dos seus melhores livros dos últimos anos. – Joana Emídio Marques
Gonçalo M. Tavares
“Uma menina está perdida no seu século à procura do pai”
Editorial Caminho, 200 págs.
ISBN 9789720046987
(nota)

1 Comment on Gonçalo M. Tavares: um olhar sobre o poder e o absurdo

  1. Na mouche. Muito obrigada.

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