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‘Mamã’, de Xavier Dolan

Depois de ‘Tom Na Quinta’, a quinta longa-metragem de Xavier Dolan valeu ao jovem realizador o seu maior prémio até ao momento.

Com Mamã, Xavier Dolan regressa a J’ai tué ma mère, seu primeiro filme que, estreado em Cannes em 2009, aí lhe valeu três prémios, entre eles o Prix Regards Jeune destacando os seus tenros 20 anos. Cinco anos passados, e com outros três filmes somados à filmografia, Dolan recebe por Mommy o Prémio do Júri nesse mesmo festival.

O retorno a que assistimos não se descreve circularmente. O ego do criador sofreu uma inevitável redução: no ano anterior, o Dolan-realizador que já conhecíamos apagara-se em Tom Na Quinta, e obtínhamos então um brilhante registo noir de uma insidiosa obsessão amorosa. Mas o olho de Dolan está bem marcado em mais um retrato de uma classe média do Quebec, nas sequências teledisco que temperam o filme, no casting de actores com uma encantadora presença.

Antoine-Olivier Pilon desempenha o papel do adolescente Steve, uma desequilibrada criança emocional (ao On n’est pas couché o realizador confidencia que o seu rapport com a violência de Steve se deve à experiência do Xavier de seis anos), cuja mãe solteira (Anne Dorval repete o papel, mas agora é viúva) é forçada a acolher quando este é expulso do centro onde ela o internara. Mediando a dupla central, Suzanne Clément ganha um novo e merecido (vide o épico Laurence Para Sempre) protagonismo com a personagem Kyla, uma professora de baixa, que na conturbação de Steve vê um reflexo da gaguez que a morte do filho lhe trouxe. Acompanhamos a luta de Diane, a mãe, por suster o filho. Ameaçando a reunião familiar temos não só o descontrole de Steve, exposto no frenesim do seu tempo de ecrã, como um estado de coisas que define um cenário: o artifício acessório de um Canadá fictício em que a legislação permite às famílias ceder a tutela dos filhos ao Estado. Parece desnecessária a ventura distópica.

O mestre das emoções apura-se num karaoke de Vivo per lei, versão de Andrea Bocelli com Georgia – a percepção de uma rejeição maternal, e da tensão que se acumula em Steve – e numa cena íntima ao som de On ne change pas de Céline Dion.

Hélas! No aplaudível amadurecimento de um estilo, Mamã, parece esgotar-se. À semelhança do filial amor de morte, o filme revela-se manipulador e inconsequente, apoiando-se no emprego dos videoclips (o repertório, que inclui Craig Armstrong, Counting Crows, Dido, Céline Dion, Oasis e Ludovico Einaudi, agradará à geração millenial) e na janela de projeção em forma quadrada, da era dos retratos instagram, heroicizando os personagens.

Um último apontamento para o forte teledisco que em 2013 Xavier Dolan assinou para o single College Boy da banda francesa Indochine. Com a fotografia a cargo de André Turpin, com quem tem uma feliz colaboração em Tom e neste novo filme, e com o actor Antoine-Olivier Pilon, concretizou-se um bem apanhado contributo ao debate sobre o bullying escolar então vigente. – Lourenço Rocha

“Mamã” (Mommy, 2014)
Realizador: Xavier Dolan
Elenco: Antoine-Olivier Pilon, Anne Dorval e Suzanne Clément
Distribuidora: Alambique Filmes

 

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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