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‘Foxcatcher’, de Bennett Miller

Mais do que uma história sobre os meandros do atletismo, o novo filme de Bennett Miller fala-nos de uma personalidade obscura e da sua obsessão pelo poder dos media.

Depois de dissecar as drásticas consequências do processo “criativo” que levou Truman Capote a escrever A Sangue Frio (no filme Capote), e de analisar a relação cada vez mais intensa que une o desporto e as potencialidades dos meios informáticos (em Moneyball – Jogada de Risco), o realizador Bennett Miller decidiu pegar numa outra história verídica, mas com contornos bem mais obscuros que as duas anteriores. Com ela, Miller explora os contornos da mediatização das relações humanas, e da maneira como podemos ser facilmente levados a acreditar na maior e mais complexa das mentiras.

Por aqui contam-se as peripécias humanas de um mundo de egos desmedidos em conflito, onde encontramos a relação entre dois irmãos, Mark (Channing Tatum) e David Schultz (Mark Ruffallo), que têm personalidades muito diferentes, mas que estão unidos pelo amor ao desporto e à competição. E do nada surge um empresário milionário, John du Pont (Steve Carrell) que decide ser o patrocinador de um – e do outro, mais tarde.

As circunstâncias que rodeiam este estranho personagem não são previsíveis, e sim insólitas, à medida que vemos um sistema de auto-idolatração a ser edificado por du Pont, em que os atletas são apenas umas meras cobaias do seu esquema interesseiro. O dinheiro, e as possibilidades que abre a du Pont, fazem com que este invente uma espécie de trono para si mesmo, de onde pode comandar os destinos das suas “marionetas”, sem entender bem qual é o seu limite – e sem saber em que momento é que os seus feitiços irão virar-se contra si mesmo.

Este é o ponto alto de Foxcatcher, e é nele que Miller aposta todas as suas capacidades, para nos dar a entender as fragilidades que caracterizam os três protagonistas da narrativa. De resto, e apesar de não atingir um certo jogo visual presente nas duas longas anteriores (notável, principalmente, na demonstração do lado mais danificado da personalidade de Truman Capote), o filme vence não só pela qualidade das interpretações (e nunca vimos Steve Carrell assim), como pela estabilidade emocional que o realizador consegue arquitetar através da câmara e dos diálogos, que conseguem dizer muito nos silêncios tensos que pontuam alguns dos momentos mais dramáticos de Foxcatcher.

Dura história de relações e de afetos, o filme fala do sonho americano numa perspetiva mais realista e mais “terrena”, e que nos mostra como a transparência de uma determinada situação pode não passar de um engano fatal – porque há muitos segredos que escondem a superficialidade do início da história e do ambiente criado entre du Pont e os irmãos Schultz. Um conto inesperado que é, também, uma crítica invulgar aos mecanismos ilusórios de grandeza utilizados pela comunicação social. – Rui Alves de Sousa

 

“Foxcatcher”
Realizador: Bennett Miller
Elenco: Steve Carrell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave
Distribuidora: NOS Audiovisuais
( 3 / 5 )

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