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‘Birdman’, de Alejandro González Iñarritu

O mais recente filme de Alejandro González Iñarritu apresenta a história de um ator que quer provar a si mesmo que não é um homem acabado.

O eterno confronto entre os palcos do teatro e os ecrãs do cinema, que já vimos por exemplo n’O Pai Tirano (1941) de António Lopes Ribeiro, conhece novo episódio em Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), o mais recente filme do mexicano Alejandro González Iñarritu. O sucessor de Amor Cão, 21 Gramas, Babel e Biutiful é quase todo ele rodado nos espaços de um teatro da Broadway (do palco e bastidores ao foyer e varanda sobre o bairro em volta), dele escapando apenas para uma visita ocasional a um bar ali ao lado, uma caminhada forçada por Times Square e pouco mais. É então sob o regime claustrofóbico deste universo fechado que encontramos a figura de um ator (protagonizado por Michael Keaton) que não quer acreditar que está acabado.

Estrela de outros tempos, quando vestia a pele de um super-herói (e são curiosas aqui as afinidades com o próprio ator, que foi o Batman de Tim Burton há mais de 20 anos), o protagonista Riggan Thompson tenta o tudo ou nada ao encenar um regresso num palco importante da Broadway, montando uma peça que resulta de uma dramatização sua de um conto de Raymond Carver. Além do desafio financeiro em jogo há provações de família a vencer (uma filha em pós-desintoxicação que trabalha como assistente no teatro e um casamento que desabou sem que o afeto tenha desaparecido), o mundo dos media a enfrentar (quer em desinteressantes entrevistas light ou no confronto com a figura do crítico) e uma dinâmica de trabalho a dominar no espaço de um palco onde entra em cena um ator substituto (Edward Norton) brilhante a vestir papéis mas social e humanamente incapaz de entender o que há para lá do palco.

Iñarritu junta à narrativa a sugestão com truque, mas sem o esconder, de viver as imagens como se parte de uma plano sequência – e aqui funcionam particularmente bem os momentos de mudança de tempo num espaço comum. As interpretações de Keaton e Norton desviam contudo as atenções destes malabarismos de câmara, montagem e efeitos visuais e alimentam o tutano do filme que junta ainda uma dose de fantasia na relação do protagonista com a figura do Birdman que em tempos vestia (e não vamos aqui dizer mais nesse capítulo, que há coisas que têm de ficar para quem vê os filmes).

O filme tropeça contudo nalguns maniqueísmos, nomeadamente na forma de reduzir a imprensa a gente tola que lança questões sobre tweets de puro delírio, jornalistas que acordam do torpor de entrevistas aborrecidas quando julgam ter ouvido falar na hipótese de um novo filme com a figura do Birdman ou a citadores de reflexões de Barthes. Isto para não falar na crítica de teatro do New York Times, ensopada em preconceitos contra famosos de Hollywood. Debates tão a preto e branco que quase retiram o fulgor às cores com que a história se quer apresentar. – Nuno Galopim

1 Comment on ‘Birdman’, de Alejandro González Iñarritu

  1. Era uma Vez um Crítico // Março 1, 2016 às 12:38 am // Responder

    Tão ao lado!

    Gostar

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