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Entre ruínas e fantasmas, num regresso a Macau

Uma fábrica de panchões macaense é visitada pela nova curta de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, seleccionada para a 65ª Berlinale.

Macau tem, “como as moedas que as slot machines engolem a um ritmo alucinante, uma [cara] calma e sorridente, outra velada e secreta.” Descrevia-o assim João Pedro Rodrigues em A última vez que vi Macau, filme de 2012 que assina com João Rui Guerra da Mata. O filme faz parte de uma série a que os realizadores chamam “filmes asiáticos”, começada com China, China em 2007 e complementada com o Alvorada Vermelha (2011) e Mahjong (2013). No estreante Porto/Pos/Doc apresentaram, a 11 de Dezembro, Iec Long, seleccionado agora para a secção Forum Expanded da Berlinale, que decorrerá entre os dias 4 e 16 de Fevereiro.

Diversas celebrações de ano novo dão início ao filme: um concerto (descaracterizado), macaenses de todas as idades deslumbrando-se com o fogo-fátuo da pirotecnia, o incenso religiosamente queimado num congestionado templo e, para espantar os maus-espíritos, o ribombar do panchão (um canudo do tamanho de um cigarro envolto em papel vermelho e com pólvora dentro, entrançado a dezenas de outros iguais, enlaçados por um rastilho).

Na ilha da Taipa, entregue ao abandono, a antiga fábrica de panchões Iec Long. Último reduto patrimonial de uma indústria que, antes do jogo, foi o principal motor da economia macaense. Teng Man Cheang, 79 anos, habita aqui. É guardião das ruínas onde, outrora, começou a trabalhar aos oito anos. Os muros de contenção, entre as várias casinhas de pedra, põem à vista o perigo do ofício, catástrofes humanas que o septuagenário terá testemunhado. As crianças, cujas mães traziam para o trabalho ou que, a partir dos seis anos, aí trabalhavam, não se espantam com o panchão; a sua presença, por ora, ancorada a Teng.

A secção Forum Expanded proporciona, segundo descrição oficial, “uma perspectiva crítica e um sentido expandido da direcção de fotografia”. Celebra este ano a sua 10ª edição com a apresentação na Academia das Artes, no Hanseatenweg, de filmes, instalações e performances subordinados ao tema “To the Sound of the Closing Door”. Quando se fecha uma porta, deus abre uma janela, diz-se popularmente. Pondo em causa o sentido de finalidade, “os trabalhos seleccionados traçam o eco da porta que bate,” “explorando, em termos cinematográficos, o potencial do passado, presente e futuro entendidos como domínio das possibilidades.”

Iec Long põe-nos em contacto com uma comunidade que ensaia um caminho entre a tradição e o instantâneo, com um mundo entre o imediato e o oculto, e ainda com o documentarista que, nesta tensão, o produz. – Lourenço Rocha

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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