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Partir da razão para descobrir a sensação

Naquele que é o primeiro grande lançamento de 2015, Panda Bear parte de um conjunto de sonoridades mais familiares e dali mergulha depois em busca de outros caminhos e histórias mais abrasivas.

Encontrei Noah Lennox, que assina como Panda Bear na hora de fazer música, num fim de tarde, após uma verdadeira maratona de entrevistas no belo Teatro Taborda, na Costa do Castelo. De costas para a parede e olhos frente a uma bela vista sobre Lisboa. As conversas sucediam-se, um jornal ou revista atrás do outro. “Trabalhámos muito neste disco e gosto muito dele”, explicou. Por isso disse à editora que faria o que quisessem. “Não me posso queixar porque fui eu quem o pediu, e tem sido interessante”. Depois das suas ou três primeiras vagas de entrevistas “repetem-se algumas perguntas de vez em quando”, reconhece. Mas diz que não é coisa que canse. “É mais o perguntar a mim mesmo que mais possa dizer sobre essa questão”, reflete, lembrando que pode “por isso aprofundar as respostas e assim as coisas ficam mais interessantes”.

Há pouco mais de um ano algumas das canções que agora escutamos em Panda Bear Meets The Grim Reapper tiveram primeira expressão ao vivo num concerto inesquecível no Lux. Na altura, em texto publicado no Sound + Vision, eu mesmo escrevia que “nova música era mais intensa, ritmada, mantendo todavia a lógica de arrumação circular e a estruturação repetitiva que conhecemos de várias composições (suas e com a banda)”. Aos poucos, canção após canção, “as ideias encaixaram e arrumaram”, revelando “uma visão pessoal de uma música electrónica de dança” que ali “servia de base a canções onde a personalidade frágil de Noah ganhava outra solidez sem contudo perder personalidade”. Mais adiante notava que “o melhor chegou depois, com uma balada (mais próxima de ecos dos álbuns anteriores – afinal há uma continuação, há pontes, nem tudo se faz de ruturas)”. E assim, “onde até ali habitara uma música da noite agora brotava uma luz distinta, suave e aconchegante, terna e convidativa, capaz de projetar memórias com sabor a ecos dos sessentas”. Pensei então “na maresia de algumas canções dos verões yé yé franceses dos sessentas”, mal sabendo que estava a falar de Tropic of Cancer (que agora escutamos no seu novo disco), talvez o mais belo momento da obra de Panda Bear até aqui. Digo eu. A música, de facto, tem esse poder de despertar relações. Umas intencionais, outras pessoais. Cada qual descobrindo afinal o quando e onde de cada referência ou relacionamento.

Primeiro um jogo, depois a libertação

Naquele fim de tarde no Teatro Taborda esta noite no Lux era já uma memória. Com o tempo Noah tinha refletido sobre as canções. E, como confessou, nada como ter conhecido um deadline para lhes dar forma final. “Gosto de trabalhar com as canções com uma certa forma de pressão”, reconhece. Do Lux regressou a casa, onde tem o estúdio e trabalha numa rotina de horas diurnas (ter filhos obrigou-o a uma mudança de horários). E com a experiência do palco trouxe primeiras impressões. Ciente de que são de facto isso: impressões. E não certezas. Depois de concertos diz que sente que muitas vezes regressa para o estúdio “a pensar que as canções x, y e z são as melhores e muitas vezes não tinham ali funcionado tão bem”. E com outras das canções que não julgava que fossem tão fortes “algo mágico acontece” e essas “é que acabam por ser os momentos fortes do álbum”. Por isso é sincero: “nunca sei”, responde.

O processo de criação em que embarca é solitário. Sempre solitário. Colhe estímulos em várias frentes, e tem mesmo rotinas de descoberta, na Internet, de música através do que amigos e pessoas que conhecem estão a referir. O trabalho de composição divide atenções com a busca de sons. O objetivo é sempre o de, com os mesmos ingredientes (afinal, como ele mesmo já lembrou, estes sons e frequências são os mesmos há milhares de anos), procurar novas formas de os combinar. “A primeira parte é como o planear de um jogo”, descreve: “Pensar o que quero fazer, como quero fazer, que equipamento quero usar. Como atuar ao vivo… Esse tipo de preocupações logísticas. Depois tento remover essa parte racional do cérebro tanto quanto me for possível. Porque sinto que pode ser mais uma desvantagem… Ouvi recentemente um podcast com o Laurent Michaels, produtor do Saturday Night Live, que disse algo que me pareceu muito correto. Ele gosta que as pessoas que escrevem para o programa cumpram prazos muito firmes. E que tenham de ser rápidos, porque assim não podem, pensar demasiado sobre as coisas. Porque ele defende que o impulso crítico pode dominar o impulso criativo. E isso é bem verdade. Por isso, assim que tenho as peças juntas tento afastar o lado cerebral e passar antes a sentir o mais possível”, conta.

Com as máquinas, que de há anos a esta parte se revelaram uma indispensável ferramenta de trabalho, desafia-se e surpreende-se. Desta vez tinha também uma ideia nova em mente: a vontade em partir de um patamar de partilha comum de muitas experiências. Investindo mesmo no que define como uma linguagem de massas. Há de facto uma presença mais evidente de estruturas próximas da música de dança e até mesmo, em Silent Gene, uma canção que é clara herdeira de tradições da pop electrónica. Mas, tal como a bordo dos Animal Collective (onde milita) ou em títulos anteriores da sua discografia a solo, há neste seu novo álbum novos sinais de uma necessidade, talvez compulsão, de procurar mais adiante. E por isso, depois de sugeridas estas linhas próximas da tal ideia de cultura de massas, a música parte noutros sentidos para definir outros caminhos. Os seus. E os das suas histórias.

Panda Bear Meets The Grim Reapper começa por surpreender logo pelo título intrigante que apresenta. Uma qualquer relação com a figura da morte? Noah diz que não é bem assim: “Foi mais uma forma de refletir uma relação que está presente em muitas das canções, que é algo assombrado. Algo de que não nos queremos aproximar ou com o qual não queremos lidar, mas que, ao meter numa máscara, se torna mais fácil de digerir. Como dar às crianças o remédio com açúcar. Dá-se um elemento que faz com que seja mais fácil lidar com um elemento difícil. A figura do encontro da morte (o ‘grim reaper’) com um urso panda tem uma dinâmica meio tonta… E muitas das canções têm essa dinâmica. Usando uma linguagem que seja comum é como tentar entrar em algo mais abrasivo e difícil de digerir. Há elementos na música que, se metermos dentro de uma máscara, são mais fáceis de abordar. E assim mete-se ali o que for, de certa forma, eventualmente mais subversivo”, explica.

Um homem na cidade

Noah vive há dez anos em Lisboa e o facto é frequentemente referido em notícias, críticas e reportagens na imprensa de outras paragens, como ainda recentemente lemos numa brilhante peça de Philip Sherburne para a Pitchfork. Se em Person Pitch (2007) traduzia primeiras expressões de uma luminosidade que o espelho de água que é o estuário do Tejo inevitavelmente lança sobre a cidade, agora vai pontuando a vivência que aqui tem trilhado atribuindo a canções nomes com os quais se relaciona com as gentes e os lugares onde faz parte do seu dia-a-dia. Em Tomboy (2011) projetou a descoberta de um encantamento desportivo em Benfica. Agora junta o Príncipe Real a um mapa mundo de lugares que a música já cantou – como Penny Lane ou Strawberry Fields, de Liverpool, através das canções dos Beatles. Mais que uma ode a um lugar – que o cinema, mais que a música, já celebrara, o Principe Real é aqui uma personagem, ou melhor, uma impressão sobre uma personagem, numa narrativa. Do jardim, não muito longe de sua casa, Noah Lennox diz que gosta “particularmente”, descreve-o como “pacífico” e ao dar a um tema do álbum é uma forma de sublinhar mais um lugar importante na sua vida (curiosamente ainda não o fez com espaços de Baltimore, onde nasceu). Estas referências são, como já explicou, como que migalhas que assim fazem um rasto que vai deixando e com o qual vamos podendo saber, afinal, quem é. Ou, pelo menos, onde está. A canção, essa “fala da forma como nos gerimos a nós mesmos, em particular os lados das nossas personalidades que possam ser mais feios, mais subversivos”. E esse “ente que gere as coisas é representado na canção como um cão-pastor”, descreve. E “de alguma forma o carácter naquele contexto” gosta de o referenciar “como um príncipe real”. – Nuno Galopim

‘Panda Bear Meets The Grim Reapper’ está disponível em edição em vinil, CD e formatos digitais, pela Domino Records.

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