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As sandálias do pecador

Rui Cartaxo Rodrigues

‘Enquanto ela dorme’,

por: Inês Maria Meneses

 

Estão 32 graus em Fátima. Uma tarde de Agosto na residencial cheia de turistas. Poucos portugueses, que esses vêm uma noite e não querem passeios. Cumprem o que a fé lhes exigiu. Pedem mais pelos que amam. E, no regresso, sacos cheios de santinhas e alguma esperança no olhar vago. Os estrangeiros são diferentes: a curiosidade dá-lhes uma alegria que os portugueses não conseguem ter ali: tocam nas imagens, tiram fotos no santuário, questionam o tamanho das velas, tentam decifrar as misteriosas frases que se espalham em placas antigas. Sermos visitantes de uma realidade que não é nossa pode dar-nos um estranho conforto.

O rapaz da recepção disfarça o suor, encostando de quando em vez a cara à ventoinha. É um prazer que dura pouco, como o rebuçado mentolado que leva à boca depois de fumar. Os clientes da residencial têm uma esplanada com cadeiras de plástico onde podem fumar. E ele, sempre que pode, vai até lá.

Ao fim da manhã chegou à residencial um padre francês. Vinha em mangas de camisa branca, e trazia umas sandálias de couro castanhas que chamaram a atenção do rapaz da recepção. Não é todos os dias que um padre exibe umas sandálias bonitas com uns pés tão delicados. O rapaz reparou em tudo enquanto o padre preenchia os dados pedidos com a identificação. Lembrou-se de sair do pequeno balcão e ir espreitar a mala do padre, como se fosse ele a levar-lhe a bagagem. Na verdade, era uma mochila também de couro, com marcas de muitas outras viagens. Volta para dentro sem que o padre tenha levantado o olhar do formulário. A chave do quarto 205 é-lhe entregue. Terá apenas de subir um lanço de escadas.
Enquanto o padre sobe, o nosso rapaz leva o olhar aos pés do francês. As sandálias são imponentes na sua simplicidade.
A tarde passa vagarosa ao contrário da ventoinha frenética que faz frente ao calor do dia. O rapaz da recepção tem a camisa molhada debaixo dos braços e levanta-os para se poder secar um pouco. Falta uma hora para sair. Tem um quarto na residencial no piso da entrada. Com os anos foi-se habituando ao barulho dos visitantes. Trabalha o verão todo, e o mês de maio, sempre. Sente-se da casa apesar de ninguém o conhecer muito bem. Chama-se Sérgio.

Sérgio tem um último cigarro para fumar mas vai guardá-lo para a hora da saída. Quando faltam dez para as oito, o padre francês desce e pergunta se pode jantar ali. A residencial tem uma sala ampla de refeições com um único prato diário. Há quem saia para procurar outras opções: o padre fica.

Sérgio passa serviço ao colega da noite. Breves impressões sobre os hóspedes que ali estão, um ou outro recado. Também ele janta ali na sala onde esta noite se come frango guisado com ervilhas. A comida é feita pela mulher do dono da residencial. Cheira bem na sala, mas é o cheiro do guisado misturado com a colónia fresca de alguém que acabou de tomar banho. Num olhar rápido, Sérgio percebe o cabelo ainda molhado do padre. Talvez seja dele que vem a colónia. A sala está composta e há uma música de piano gravada que se ouve há anos naquela sala. É como se não existisse, mas talvez o silêncio fosse pior. Não é coisa que inquiete Sérgio. Às vezes apenas o irrita. Mas esta noite não.
Já na sobremesa, o padre come uma maçã assada. Havia pudim flan mas o cheiro adocicado do chá que cobria as maçãs no forno destronou o caramelo instantâneo.

Sérgio levanta-se para ir fumar. A noite está quente e o quarto dele, pequeno e abafado, pode esperar. No terraço há mais estrangeiros: falam baixinho e escrevem postais com imagens do santuário. Sérgio já tem a camisa seca mas sente o desconforto do suor na pele. E tem preso ao nariz o cheiro da colónia do padre. Como gostava de estar de banho tomado a passear-se com aquele cheiro…

O padre chega à esplanada. Sérgio está agora sentado num pequeno muro branco cheio de heras que treparam desenfreadas desde que ele ali chegou para trabalhar. É fácil perceber como já ali está há tantos anos e a vida dele não mudou. Só as heras cresceram.

O padre passa rente a ele, e deixa o cheiro da colónia no ar. Tem as sandálias nos pés. Vira-se de repente e vem ao encontro de Sérgio. Pede-lhe um cigarro. O facto de Sérgio ter fumado o último que tinha não os impede de conversar – primeiro em francês, depois, mais à vontade, em inglês. A noite está silenciosa, já sem o som do piano da sala das refeições. Os dois homens sentaram-se. Há apenas mais um hóspede nas mesas de plástico. Sérgio e o padre falam do Santuário e do seminário de um – e da faculdade adiada – de outro. Estão animados mas de uma forma contida. As portas que dão acesso à esplanada fecham-se à uma da manhã. Sérgio avisa o padre antes da hora e levantam-se caminhando vagarosamente para a recepção.

Quando os dois homens se despedem junto ao quarto de Sérgio, o padre faz-lhe um sinal com a cabeça, apontando para o piso de cima onde está hospedado. Sérgio primeiro entra no quarto dele, depois faz tempo para subir. Vai ainda à casa de banho que partilha com outros refrescar o peito e lavar os dentes. Sobe sem que ninguém perceba, só o rapaz da recepção anda por ali e está ao telefone. Bate à porta do 205 e o padre abre. As sandálias estão já arrumadas por baixo da cadeira da escrivaninha.

Durante três noites será assim, depois o padre seguirá viagem.

Sérgio está na recepção quando a placa do 205 lhe é entregue. Os dois tratam-se de forma cordial, mas o padre toca na mão de Sérgio enquanto paga o quarto. Sérgio sai do balcão já sem ter de pensar numa desculpa sobre a bagagem. É então que repara que o padre tem uns ténis azuis calçados. Na mão um saco que prontamente entrega a Sérgio pedindo-lhe que veja depois.

Quando a porta automática da residencial se fecha, Sérgio abre o saco e estão lá as sandálias.

Calçou-as o verão inteiro.

Rui Cartaxo Rodrigues

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