Últimas notícias

Acerca de Nada

Por DAVID FONSECA:

“GEORGE: The show is about nothing.
(…)
RUSSELL: How is that a show?
JERRY: Well, uh, maybe something happens on the way to work.
GEORGE: No, no, no. Nothing happens.
JERRY: Well, something happens.
RUSSELL: Well, why am I watching it?
GEORGE: Because it’s on TV.
RUSSELL: Not yet.”

Um dos episódios mais emblemáticos da série Seinfeld (The Pitch, 1992), abordava de forma bem humorada uma ideia que, com o passar dos anos, se tornou numa banal e recorrente realidade. Afinal, podem mesmo fazer-se programas televisivos “sobre nada” e ser líder de audiências, um feito repetido ao longo dos anos com os mais diversos cenários e sub-produtos da mesma linha de pensamento. No entanto, não é só no ecrã que esta noção se impôs, tendo-se alargado a outros meios de comunicação e a outras áreas das artes e entretenimento.

O panorama musical mainstream vive hoje um dos seus momentos mais notórios de decalque sistemático de tudo o que foi sucesso imediatamente anterior, tentando repetir sempre o mesmo impacto num público genérico através da normalização dos métodos, musicais e empresariais, para alcançar o patamar dourado do reconhecimento das massas. Fazem-se estudos de mercado, testam-se as canções em grupos alvo e reduz-se o risco ao mínimo para evitar grandes desvios do grande público. Obviamente que não é um comportamento novo, a indústria sempre perseguiu o sucesso financeiro e não a julgo por tal. Afinal, a música também é, e sempre será, um negócio. Mas a forma como essa abordagem evoluiu tornou-se claustrofóbica por diversas razões: a redução drástica da venda de discos, o declínio dos próprios media tradicionais e a sua luta pela sobrevivência, a necessidade imperiosa do sucesso imediato das canções junto do público para não falhar mais um passo nessa corda bamba. Tudo soma para depois subtrair ao espaço mais interessante de todos, ao lugar onde o futuro da música se desenha sem repetições: o risco.

A banda com que comecei a minha carreira musical, os Silence 4, nunca teria o sucesso avassalador do seu disco de estreia se tivesse nascido nos dias de hoje. Rejeitados por editoras inúmeras vezes, longe de qualquer modelo de sucesso actual, sediados fora dos grandes centros, ausentes dos media nacionais, sem experiência de estrada, sem management, planos de marketing ou gravações profissionais, nada existia no nosso currículo profissional que apresentasse algum tipo de garantia de sucesso. A liberdade da nossa música era a nossa única arma e procurámos sempre fazer o melhor que podíamos com ela. Em 1998, a indústria musical era fortíssima e tinha espaço de manobra para falhar, dando-nos uma oportunidade que hoje seria rara numa grande editora. Fomos assinados e baptizados, como tantas outras bandas na altura, de “contratação de risco”, uma maneira simpática de dizer que nunca iríamos a lado algum. E depois fomos todos, a banda, o público e a indústria, surpreendidos pela curiosidade massiva do tal público que tantas vezes se trata como “genérico”.

No entanto, a lição de outros tempos pouco serve no cenário actual. Apesar de existirem excepções, grande parte das bandas mais interessantes do panorama musical tem uma dificuldade extrema em saltar para outro parâmetro de visibilidade junto do grande público. A inovação e o risco têm um lugar cada vez menor, ausentes nas contratações das grandes editoras, longe de ocupar lugar nos media mainstream, sendo sempre atropelados pelos “valores seguros”, normalmente conotados com algo que nos é vagamente familiar e que não oferece grande resistência ao menor denominador comum. Numa sociedade onde a oferta musical é absolutamente esmagadora, poucos são aqueles que querem perder tempo a ouvir e ver algo que lhes pareça estranho ao primeiro impacto. Na política consumista da sociedade moderna, tudo tem de ser amor à primeira vista quando o tempo não chega para tanto que nos é oferecido. E na confusão absurda de tanta oferta, acaba sempre por reinar um certo simplismo generalizado no consumo massivo da arte e entretenimento, a contrastar com a complexidade da vida dos nossos tempos.

Antes de ser músico, sou principalmente um melómano que procura na arte e na música um desafio em forma sonora. A música, como arte popular, tem o dever de fazer todas as perguntas, levando-nos a encará-la como um agregador social que nos aproxima um dos outros por uma resposta em comum, seja ela política ou emocional. E é também o nosso papel de ouvintes que deve ser posto em causa quando usamos o nosso tempo cada vez mais raro e difícil de gerir num conjunto de ideias, sons e imagens que, no seu centro, são “sobre nada”. Não temos de ver ou ouvir o que quer que seja só porque “está a dar”, mas sim procurar aquilo que vai de encontro a esse lugar misterioso e abstracto que cada um encerra em si. Como tão bem escreveu Bill Watterson na conclusão da sua brilhante saga “Calvin & Hobbes”, “It’s a magical world, Hobbes, ol’ buddy … let’s go exploring!”

 

3 Comments on Acerca de Nada

  1. Muito bom! 🙂

    Gostar

  2. K testamento

    Gostar

  3. Adorei o texto, retrata exactamente o que sinto sobre a música, sendo uma das minhas paixões e assistindo aos sucessos de hoje que se desfazem num fechar de olhos… ao contrário do que considero “boa música não tem prazo de validade” e aqui posso nomear uma série de bandas que na altura sim se preocupavam em fazer “música” e não apenas “aparecer” neste mundo cada vez mais industrial… e falo em bandas que marcaram a minha adolescência desde Pearl Jam, Nirvana e mais tarde e no “campo nacional” os Silence 4!
    Infelizmente e por vezes tive a sensação de ser das poucas pessoas juntos dos meus conhecidos que nunca tinha assistido a um concerto até ao dia 5 de Abril 2014 em que revivi no espaço de escassas horas momentos do meu passado! O meu Obrigado a artistas que fazem o que gostam e não desistem dos seus sonhos enquanto nos apaixonam com algo que nunca falta na minha vida e com dose grande diária… Música!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: