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Um autorretrato de Philip Glass

‘Complete Études’, em interpretações da pianista japonesa Maki Namekawa, junta peças que o compositor escreveu ao longo de cerca de 20 anos. Por elas passa uma síntese dos caminhos da sua música neste período.

Texto: NUNO GALOPIM

Ter material para os recitais para piano e, ao mesmo tempo, desenvolver a técnica como intérprete ao piano. Estes foram os dois motivos que levaram Philip Glass a criar um conjunto de peças – e note-se a ideia de “estudo” que reforça o segundo dos dois objetivos – que agora, após duas décadas de trabalho (espaçado) de composição, atingem os vinte études que não só foram apresentados em concertos em 2014, como chegaram recentemente a disco numa gravação protagonizada pela pianista japonesa Maki Namekawa, num disco lançado pela Orange Mountain Music, a editora do próprio compositor.

Apesar de ter tido o piano entre os maiores focos instrumentais do seu processo de formação (em inícios dos anos 60), Philip Glass só começou a compor para este instrumento nos anos 80 quando, por ocasião de um desafio do New York Council of The Arts, foi levado a projetar um primeiro recital. Juntou peças, algumas delas não tendo sido originalmente compostas para piano. Mas começou a ter uma agenda de recitais como solista ao piano em paralelo com a que mantinha com o Philip Glass Ensemble. E em 1989 editava em Solo Piano (pela CBS) um primeiro álbum de peças para piano – algumas delas ainda hoje surgindo em programas de recitais seus.

A necessidade de compor mais música para estes recitais levou-o a pensar, já nos anos 90, nesta série de Études, que começou por surgir num primeiro conjunto que entregou “como presente” a Dennis Russel Davies – maestro que tem assegurado muitas das estreias de obras de Glass, mas também ele pianista. Ao mesmo tempo, surgia a tal ideia de compor peças que lhe permitissem melhorar a técnica ao piano. Ideia que ele mesmo confessou quando, em 2002, pela Orange Mountain Music, editou Études For Piano – Vol I, no 1-10, em interpretações do próprio Philip Glass. “O resultado é um corpo de trabalho que reflete um leque amplo de dinâmicas, tempo e emoção”, escrevia o compositor nas notas incluídas no booklet, onde deixava já no ar a vontade de completar esse conjunto inicial de dez études com outros tantos, nos anos seguintes.

Foi há cerca de três ou quatro anos, com uma solicitação chegada de Perth, na Austrália, que compôs os últimos quatro, completando os vinte que inicialmente projetara. Tinha a ideia de os poder assim apresentar num único programa, dez mais dez, com um intervalo pelo meio. E quando, em dezembro do ano passado, Philip Glass, Nico Muhly e Maki Namekawa apresentaram interpretações deste corpo de trabalho, ficou claro que, mesmo definindo um conjunto, os dois “livros” de études são afinal ideias complementares de um todo, o segundo (que corresponde aos études 11 a 20) definindo, como o próprio Glass então explicou, um espaço de novas aventuras pelas noções de harmonia e estrutura, o todo sugerindo assim uma trajetória maior por um espaço mais vasto de ideias e técnicas. Ou, como ele mesmo disse em entrevista à Music Room, um autorretrato não intencionado, mas inevitável. E tem razão, representando este percurso de 20 peças, compostas entre inícios dos anos 90 e o arranque da presente década, uma síntese clara e concisa do que foram alguns dos pontos de vista que a música de Philip Glass – mesmo a orquestral e até mesmo a criada para os palcos de ópera – percorreu e experimentou nestes últimos 20 anos.

A gravação, por Maki Namekawa de The Complete Études junta assim à discografia “oficial” para piano de Philip Glass – que contém vários títulos, das transcrições em Music From The Hours (2004) ou Dracula (2008), ambas por Michael Riseman à Orphée Suite for Piano (2003), por Paul Barnes, todos eles na Orange Mountain Music – o seu mais importante disco desde o inaugural Solo Piano, de 1989. Em 2014 foi ainda lançado, mas por outra editora (a ABC Classics) o álbum Mad Rush: Solo Piano Music by Philip Glass, de Sally Whitwell. Em simultâneo com o o disco de Maki Namekawa foi ainda lançado um volume impresso com as partituras da totalidade dos 20 études para que, como Glass disse à Music Room, a música possa ir parar “às mãos de quem a quiser tocar”.

‘The Complete Études’, de Philip Glass, em interpretações de Maki Namekawa é um duplo CD editado pela Orange Music. ‘Philip Glass: The Complete Piano Études’ é um livro de partituras, com 112 páginas, lançado pela Dunvegen Music Publishers.

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