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A primeira geração pop electrónica em 10 álbuns

Texto: NUNO GALOPIM

A história da electrónica na música já somava uns anos longos e uma série de experiências por compositores de renome quando, em finais dos anos 60, Walter (hoje Wendy) Carlos resolveu abordar peças de Bach (e depois Handel) com um teclado Moog. Kubrick gostou, e trouxe essas visões para a banda sonora de A Laranja Mecânica, ao mesmo tempo que, na Alemanha, uma série de novas bandas encontravam nessas novas ferramentas a forma de criar uma música que fosse do seu tempo e não devedora de raízes norte-americanas. Se a versão dos Hot Butter para Popcorn (original de Gershon Kingsley), em 1972, gera um dos primeiros instantes de sucesso pop com electrónicas se, em 1974, Autobahn, dos Kraftwerk, abre caminho a uma nova forma de entender a canção num novo quadro instrumental, e, em 1977, os Suicide revelam no seu álbum de estreia uma forma inesperada de compor canções com marcada carga narrativa e cénica socorrendo-se de electrónicas, a verdade é que seria preciso esperar até finais dos anos 70 para que da relação com os novos teclados e máquinas emergisse uma relação fluente (e popular) com a música pop. Depois dos dados definitivamente lançados por The Man Machine, álbum de 1978 dos Kraftwerk, houve inclusivamente quem tivesse feito como que uma contagem decrescente para a eventual conquista de um primeiro número 1 na que era então a mais influente tabela de singles europeia: a britânica. A honra coube a Gary Numan (ainda com os Tubeway Army), em 1979, com Are Friends Electric?… A verdade é que tudo mudou. Do hip hop à house, do electro ao hi-nrg, entre tantas mais outras formas, a herança destes pioneiros da pop feita com electrónicas abriu caminhos que ainda hoje têm descendências ativas. Pet Shop Boys, Robyn, Röyksopp, Lady Gaga, Madonna, Hot Chip ou LCD Soundsystem… A genética de todos eles herda dados que passam, de certa forma, por aqui. Eis dez discos que ajudaram a abrir novos caminhos, antes mesmo da chegada de primeiros casos de sucesso maior, com os Soft Cell, OMD, Heaven 17 ou New Order.

 

1978 – Kraftwerk ‘The Man Machine’
Depois de descoberto um novo caminho em Autobahn (1974) e de aprofundadas as relações das electrónicas com a canção entre Radioactivity (1975) e Trans Europe Express (1977), os Kraftwerk apresentam neste álbum de 1978 a primeira grande referência da primeira geração da pop electrónica. Em apenas seis canções, entre as quais clássicos como The Model, Neon Lights ou The Robots, definem-se ideias e caminhos que se tornarão dos mais influentes na história da pop.

1978 – Riechmann ‘Wunderbar’
É mais um álbum de transição que propriamente um disco pop. Editado semanas após a morte do seu autor (um antigo colaborador de Michael Rother, dos Neu! e de Wolfgang Flur, antes deste chegar aos Kraftwerk), Wunderbar é um interessante retrato de um momento em que do krautrock emerge uma vontade em explorar composições mais curtas, em alguns instantes antevendo linguagens que pouco depois acabariam por definir a alma de uma pop de alma tensa e assombrada feita com sintetizadores a que se chamou então cold wave.

1978 – Jean Michel Jarre ‘Equinoxe’
É (tal como Wunderbar) um álbum instrumental, mas depois de explorada em Oxygéne uma visão feita com electrónicas do que era a dimensão complexa e de fôlego sinfonista do rock progressivo, o músico francês encontra na simplicidade, melodismo e estratégias de repetição da canção pop um caminho que aqui explora sem que deixe de construir uma obra de grande fôlego. As parcelas a que chamou Equinoxe IV e Equinoxe V (que editou inclusivamente em formato de single) são proto-canções de pop electrónica.

1979 – Yellow Magic Orchestra ‘Yellow Magic Orchestra’
O trio formado por Ryuichi Sakamoto (originalmente contratado como músico de estúdio), Haruomi Hosono e Yukihiru Takahashi, ao qual se juntou numa etapa Hideki Matsutake (um antigo colaborador de Tomita) não só é um marco na história da música japonesa como representa um dos mais marcantes pioneiros da música pop feita com electrónicas. O álbum usa frequentemente sons de jogos de computador e cita frequentemente filmes de Godard como títulos de temas.

1979 – Tubeway Army ‘Replicas’
Depois de um primeiro álbum editado em 1978, ainda dominado por um relacionamento com as guitarras herdeiro dos sinais de libertação que chegaram na ressaca (e como consequência) do punk, Gary Numan leva o grupo que então liderava a criar um álbum sonicamente dominado pelos sintetizadores e plasticamente decidido a sugerir atmosferas sombrias. Um dos paradigmas da cold wave, o álbum incluía no alinhamento o clássico Are Friends Electric?.

1979 – Telex – ‘Looking For St. Tropez’
Há quem deles se lembra por terem representado a Bélgica na Eurovisão em 1980. Mas um ano antes o grupo editara um álbum de estreia onde juntava originais a versões de clássicos do rock’n’roll e do yé yé. Não tem o poder visionário de uns Suicide, Kraftwerk ou Yellow Macic Orchestra, mas mostrou que a pop feita com electrónicas começava a saltar fronteiras e ajudava a definir a identidade de uma nova geração.

1979 – The Human League ‘Reproduction’
Em 1978 os Human League (nascidos na mesma cidade industrial de Sheffield onde então emergiam também os Cabaret Voltaire) tinham sido dos primeiros a lançar, no Reino Unido, um single de pop electrónica: o sombrio Being Boiled. Longe da luminosidade pop (e do sucesso) que obteriam em 1981 com o terceiro álbum Dare!, Reproduction é um álbum sombrio, cabendo a Empire State Human (escolhido como single) o lançar de ideias que, algum tempo depois, definiriam uma mudança de rumo para o grupo.

1980 – Buggles ‘The Age of Plastic’
Editado em 1979 o single Video Killed The Radio Star transportava a carga algo profética que vislumbrava a chegada de uma era em que a TV tomaria a liderança da divulgação musical (e por isso seria o primeiro teledisco que a MTV exibiria em 1981). Mas aos Buggles (onde militava Trevor Horn) cabe ainda a autoria de um álbum que, sem viver exclusivamente de electrónicas, ajudou a cimentar o seu papel de grande protagonismo no mapa da pop dos anos 80 que então nascia.

1980 – Yello ‘Solid Pleasure’
Da Suíça nasceu em finais dos anos 70 um dos mais inesperados pólos de invenção em terreno da pop electrónica. Revelados por um primeiro single em 1979 editaram um álbum de estreia em 1980, ainda como trio (pouco depois ficariam apenas na banda Dieter Meier e Boris Blank). Com o clássico Bostisch no alinhamento, o álbum revelava logo um cuidado extremo na construção de cenários e ambientes e vincava desde logo um gosto pela exploração dos ritmos e de uma atitude vocal com personalidade demarcada.

1980 – John Foxx – ‘Metamatic’
Vocalista da formação inicial dos Ultravox e figura-chave na progressiva aproximação do grupo aos sintetizadores nos três álbuns que editaram entre 1976 e 78, John Foxx tinha seguido caminho a solo (e seria então substituído por Midge Ure). Estreou-se a solo em Metamatic, disco onde continua demandas que trazia de trás, aprofundando todavia a exploração das electrónicas como sua principal ferramenta de trabalho. O álbum é um dos paradigmas da cold wave.

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