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A Re-Invenção de Dennis Cooper

‘Zac’s Haunted House´é uma “novela” que se apresenta num formato surpreendente. É composta na integralidade por uma sequência de gifs animados e está já disponível ‘online’.

Texto: CARLOS CONCEIÇÃO

Acaba de ser disponibilizada online a mais recente criação do autor Dennis Cooper, uma “novela” – a sua décima – mas num formato surpreendente: composta na integralidade por uma sequência de gifs animados, Zac’s Haunted House surge em bizarra coerência com a obra anterior do autor. Não é recente para Dennis Cooper a busca de novos formatos nem de plataformas que fundam linguagens como a literatura e a video-instalação (Jerk, 2010), como não é nova a sua inclinação para os fascínios do mundo da Web. Um dos seus trabalhos mais populares, The Sluts (2004), é integralmente composto por entradas num fórum de comentários a um serviço de prostituição masculina. Mas enquanto esse livro se desenvolve como uma investigação policial, Zac’s Haunted House surge como um cocktail de elementos estéticos da obra de Cooper, com referências que vão da série B à publicidade, passando pela revisitação aos nineties através de uma alma tão grunge quanto pop, percorrendo os caminhos habituais da lúgubre sexualidade adolescente, do terror, do homicídio e de uma turva fronteira entre realidade e ficção.

Para Dennis Cooper, o uso de gifs animados como substituição para a linguagem escrita relaciona-se directamente com um interesse de longa data pela apropriação das linguagens da cultura de massas com fins subversivos ou satíricos. Mesmo podendo uma narrativa inteiramente composta por gifs de origens díspares parecer vaga ou cansativa, Cooper sublinha que o uso dessas imagens se tornou uma popular forma de comunicação, à semelhança dos emoticons, substituindo palavras por referencias e símbolos pop. Do BuzzFeed ao Tumblr, passando pelos comentários nas redes sociais, o gif tornou-se um dialecto omnipresente da web. De tal forma que parece lógico que o passo seguinte seja elevar essa linguagem à plataforma da narrativa literária.

Esta experiência prova-se tão terrível e satisfatória quanto o restante trabalho do autor, seguindo com a exploração da dupla de conceitos preferida de Georges Bataille, o erotismo e a morte, bem como da definição que este faz de erotismo como “o consentir na vida ao ponto de morrer” (O Erotismo: Morte e Sensualidade).

Numa nova desconstrução narrativa, Dennis Cooper leva a questão polémica da apropriação de texto (como nova forma autoral) ao seu mais extremo limite, exigindo ao leitor um mergulho na multiplicidade de potenciais significados de um gif ou de uma sequência deles. De leitura macabra e desconcertante, esta obra não propõe apenas uma re-invenção da estrutura clássica da narrativa literária, mas também uma abertura de novas hipóteses para a narrativa visual. O mais especial em Zac’s Haunted House enquanto obra é que, por um lado, só é possível de experienciar online, não deixando de estabelecer novas regras e novas possibilidades quer literárias quer cinematográficas; por outro, que nunca uma narrativa foi simultaneamente tão visual e tão aberta à interpretação do espectador sem cair no cripticismo que um certo cinema pseudo-narrativo já possa ter tentado. Capaz ao mesmo tempo de deslumbrar e de causar profundo desconforto, a obra de Dennis Cooper encontra nesta forma novo fôlego, três anos após a publicação do seu mais recente romance, The Marbled Swarm.

‘Zac’s Haunted House’ está disponível para download gratuito, através da Kiddiepunk.

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