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Espelho Meu: há alguém mais negro do que eu?

‘Black Mirror’ é uma série que disserta sobre o lado negro da nossa relação com a tecnologia, ao mesmo tempo que levanta questões políticas, sociais e existenciais.

Texto: ISILDA SANCHES

Black Mirror é desconcertante, desconfortável e fascinante. Negro no nome, no conteúdo e no humor. É uma das melhores séries de televisão deste século (e o século XXI tem sido fértil em excelentes series de TV: Sopranos, Lost, The Wire, Forbrydelsen, House of Cards…) mas com um universo próximo de clássicos como Quinta Dimensão ou Contos do Imprevisto, tanto na temática como no formato de episódios independentes. Talvez por isso venha normalmente com o rótulo sci-fi, mas se é verdade que estamos ainda a alguns anos de ter implantes que gravem as nossas vidas e nos permitam fazer rewind e pause de tudo como num vídeo (The Entire History Of You que Robert Downey Jr está a adaptar ao cinema) o facto é que já há empresas que oferecem a eternidade através da nossa actividade online (como em Be Right Back). O futuro é já ali e, no entanto, o futuro nem é o mais importante.

Black Mirror é uma série criada pelo britânico Charlie Brooker, jornalista, humorista, argumentista, autor também de Dead Set, uma série de zombies filmada na casa do Big Brother britânico. Foi originalmente emitida pelo Channel 4 a partir de 2011, num total de duas temporadas, cada uma com 3 episódios de 60 minutos e um episódio de Natal extra-longo com Jon Hamm (Donald Draper de Madmen) exibido no final do ano passado. Em 2012 ganhou o Emmy Internacional para melhor série de televisão mas a sua fama tem vindo a propagar-se online de forma quase mística. Black Mirror é hoje uma série de culto entre os mais ágeis com as novas tecnologias, o que, no mínimo, é irónico, ou simplesmente lógico. E tudo ficou mais intenso desde que Stephen King fez um tweet em Dezembro de 2014 a dizer: “loved Black Mirror, terrifying, funny, inteligent, like the Twilight Zone only rated R”.

Desde o primeiro episódio, The National Anthem, em que um membro da família real é raptado e a sua libertação depende do primeiro-ministro fazer o impensável em prime time televisivo (não digo o que é porque o feito choque da revelação logo nos primeiros minutos do episódio não deve desperdiçar-se) que se percebe que Black Mirror não tem nenhuma moral optimista para nos oferecer, antes pelo contrário. As histórias são quase sempre satiricamente cruéis, os personagens pobres coitados mesmo quando parecem grandes ou têm boas intenções. No episódio de Natal, apesar do branco do título, não há redenção, mesmo quando estamos prestes a acreditar nela e creio que é seguro dizer que terminamos com um amargo de boca a considerar a hipotética utilidade de bloquear pessoas na vida real como acontece nas redes sociais, assim como a possibilidade de termos duplos de nos próprios como servos (realidades no episódio). Mesmo que as suas questões não sejam completamente novas, a escrita inteligente, a realização e um elenco de luxo (Rupert Everett, Rory Kinnear, Jessica Brown Findley, Rafe Spall além de Jon Hamm, são alguns dos actores dos vários episódios) dão-lhes nova consistência. Black Mirror faz-nos pensar em nós e no mundo em que vivemos e a conclusão não é boa. É por isso que é uma das melhores coisas algumas vez feitas para televisão (mesmo que seja vista noutro tipo de ecrã).

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