Ameaças do nosso tempo
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
Um dos realizadores de culto do cinema americano regressa com Blackhat – Ameaça na Rede filme que, como o nome sugere, lida com o mundo cibernético. Ao contar a história de um hacker que é contratado para impedir as ações de um Blackhat (ou por outras palavras, um pirata informático que tem intenções terroristas), somos confrontados com o poder da internet. O tema não está trabalhado da maneira mais singular, uma vez que haveria por aí outros casos bem mais interessantes se a ideia era aprofundar a exploração dos efeitos perigosos, quase fatais, que a web pode envolver nas nossas atitudes e relações neste nosso mundo contemporâneo.
Contudo, foi um bom pretexto para Michael Mann regressar à realização, depois de vários anos sem filmar (ou seja, desde 2009, com a subvalorizadíssima história sobre John Dillinger). Não atingindo o fulgor de outras andanças (torna-se inevitável mencionar Heat – Cidade Sob Pressão, ou o menos óbvio O Ladrão Profissional) e marcado por um argumento débil e incongruente, Blackhat só consegue iludir algumas das suas faltas porque contou com a mão de um autor inconfundível do cinema de ação (sim, há autores neste tipo de cinema).
Nas mãos de um qualquer cineasta apenas competente, este poderia ser um desprezível filme de pancadaria de domingo à tarde, polvilhado com uma historieta de amor. Blackhat transforma-se, graças ao trabalho de Michael Mann, num interessante tratado sobre as mudanças da sociedade contemporânea e aí, por vezes, chega a entusiasmar. Tem diálogos fracos, sim, mas ninguém consegue ficar indiferente ao estilo único que o realizador impõe à história, elevando um pouco as suas premissas e o resultado final.
Blackhat é mesmo assim um notável exercício visual que joga com a noção de que o cidadão comum tem da internet, analisando ao detalhe os efeitos de um simples clique no sistema eletrónico que regula o mundo económico, social e cultural, e que o pode colocar, de um momento para o outro numa situação iminente de colapso total. Mas retirando esta capa de atualidade ao filme, o que interessa aqui é o sumo que Michael Mann consegue retirar das cenas que, provavelmente, seriam mais banais, e como culmina o jogo tenso do “gato e rato” que se constrói entre os dois hackers, numa luta de interesses constante que se move entre os efeitos épicos da câmara de Mann.
É um modelo semelhante ao da oposição entre Al Pacino e Robert de Niro em Heat, e ao da perseguição de Christian Bale a Johnny Depp em Inimigos Públicos, e que cativa até ao último momento. E esta é única razão que nos faz ficar “colados” ao ecrã, mas que se sobrepõe a tudo o resto.
Entretenimento bem pensado e formalmente conseguido, Blackhat é um filme que não deve ser evitado, mas sim visto e experimentado. No entanto, se o compararmos a todos os grandes filmes do realizador (que não pecavam na escrita do argumento e no trabalho dos atores), este mais recente projeto acaba por se tornar, em parte, uma desilusão. De Michael Mann aqui só encontramos as características formais, o lado cool da realização, faltando o que poderia ter feito de Blackhat um filme de destaque do cinema de ação.
Blackhat
Realizador: Michael Mann
Elenco: Chris Hemsworth, Viola Davis, Wei Tang |
Distribuidora: NOS Audiovisuais
3 / 5

Acho q esse buling e horrivel
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