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A guerra no espaço e no tempo

Textos: JOÃO LOPES e NUNO GALOPIM

Chega amanhã aos ecrãs nacionais ‘Sniper Americano’, filme de Clint Eastwood, baseado na autobiografia do mais letal dos atiradores dos EUA, que abre um olhar diferente sobre um país em guerra.

Siena Miller, em 'American Sniper'

Há uma cena de Sniper Americano em que Taya Kyle (Sienna Miller) telefona ao marido ao sair de uma consulta para avaliar a evolução da sua gravidez. Chris (Bradley Cooper) atende, algures no Iraque — está no terreno de combate, agachado sobre a sua arma, recebendo instruções sobre o movimento dos inimigos. Começam a falar sobre a bebé que vai nascer. Subitamente, Chris é interrompido por tiros à sua volta — espreita pela mira da arma, já não consegue responder à mulher… Taya ficou à entrada do hospital, há pessoas a entrar e a sair, parece que vai lançar um grito capaz de se ouvir do outro lado do mundo, mas permanece quase imóvel, como que medindo a distância que a separa do som dos tiros que ouve no seu telemóvel…

É uma daquelas cenas que bastam para definir um cineasta excepcional — e, já agora, uma actriz e um actor em estado de graça. Pela intensidade dramática do diálogo? Sim, sem dúvida. Mas sobretudo porque nela se jogam de forma radical os dois elementos em que, em última instância, se decide sempre o que cinema é, o que o cinema pode ser. Primeiro: o espaço. Segundo: o tempo.

Repare-se: não é exactamente uma montagem paralela entre duas acções que estão a decorrer em contextos obviamente distintos. Aquilo que Clint Eastwood filma é o modo como a relação de Taya e Chris (no limite, qualquer relação) se confunde com a criação de um espaço próprio, porventura inabitável, refazendo também as medidas do tempo, quer dizer, a sua impossível linearidade.

O filme chega da América enquadrado pelas derivações mais simplistas do debate ideológico (?), como se só fosse possível fazer um filme sobre a guerra, qualquer guerra, a partir de um ponto de vista transparente, definitivo e, hélas!, redentor. Acontece que Eastwood não fez Sniper Americano para aparecer no noticiário das oito (ou, como ele já teve o cuidado de dizer, para ganhar prémios). Contra qualquer facilidade do género, a sua encenação organiza-se a partir de um intimismo compulsivo em que, em vez da chantagem da “transparência” televisiva, começamos por participar da dificuldade do próprio Chris entender o que está a acontecer dentro da sua cabeça. Chama-se a isso humanismo e, como bem sabemos, não está na moda. – J.L.

 

Sniper

A autobiografia de Chris Kyle, o sniper mais letal da história dos EUA, com 160 mortes oficialmente confirmadas, outras 70 sendo-lhe atribuídas, embora off the record, não despertou paixões imediatas no cinema. Como recorda a Hollywood Reporter, o livro ia de vento em popa na lista dos mais vendidos, mas a existência de um processo lançado por um dos nomes citados (referido num momento de desentendimento num bar) poderá ter travado a compra dos direitos. Com um argumentista a bordo e os direitos para cinema finalmente adquiridos (foi uma questão de meses), o filme ganhou fôlego, sendo Spielberg então falado como potencial realizador. Leu argumento e sugeriu o aprofundar de uma relação com a figura de um sniper inimigo – um espelho do protagonista – ideia que assegura, de facto, a medula da tensão narrativa da história que agora acompanhamos no grande ecrã. Restrições orçamentais terão ditado o afastamento de Spielberg, entrando em cena Clint Eastwood para, depois da estreia em Jersey Boys, conhecer aqui a sua segunda experiência integralmente filmada com câmaras digitais.

Convenhamos que não ficamos a perder. Eastwood mostra, aos 84 anos, a segurança de um contador de histórias capaz de mergulhar não apenas na alma das personagens mas do contexto, sem nos pregar um sermão sobre a guerra. Está lá tudo: o texto no contexto. Não se entende, apenas, como é que, ao somar seis nomeações para os Oscares, entre as quais na categoria de Melhor Filme, Eastwood está ausente entre os nomeados para Melhor Realização. Sobretudo quando este é mesmo um dos seus melhores esforços recentes por detrás da câmara. Talvez mesmo o melhor desde Gran Torino.

Sniper Americano recua brevemente no tempo aos dias de infância e juventude para entender os valores de “cão pastor” – incutidos pelo pai – que movem um homem que entende que o seu papel é o de defender os outros. Valores que ganham corpo quando procura um sentido de vida ao alistar-se nos SEALS, vivendo uma sucessão de campanhas no Iraque onde a sua pontaria e capacidade de acertar num pequeno alvo a grande distância dele fazem um herói entre os seus e uma cabeça a prémio entre os inimigos.

Tal como outros filmes recentes que tomaram as “guerras do golfo” como cenário, Sniper Americano procura um olhar realista no tratar dos espaços de vida quotidiana de quem combate (não será por acaso a tão natural associação que acabamos por fazer com Estado de Guerra de Kathryn Bigelow). A atenção do filme não se prende contudo nas sucessivas missões fora do aquartelamento norte-americano, entre ruas de uma cidade supostamente evacuada onde restam grupos resistentes e atiradores furtivos. Chris Kyle (interpretado por Bradley Cooper) é o centro de gravidade, e são frequentes os momentos em que, um pouco como sucedia em A Barreira Invisível de Terrence Malick, a sua voz interior ganha som no ecrã. Mas Eastwood – e o argumento de Jason Hall – olham mais adiante, não apenas entre colegas (e mais de longe inimigos e autóctones) mas, sobretudo, à mulher (Siena Miller), que o tem à distância de um telemóvel, mas na verdade tão longe quando está em combate ou de regresso (sempre pontual) a casa. O sangue da ação pode estar nas ruas das cidades feitas campos de batalha no Iraque. Mas o pulsar de Sniper Americano está no sentir de quem vive a guerra e de quem com ela acaba inevitavelmente ter de conviver, mesmo a milhares de quilómetros de distância. Afinal, e apesar dos mapas, aqui se sente que a guerra não fica assim tão longe. – N.G.

“Sniper Americano”
de Clint Eastwood
Com: Bradley Cooper, Siena Miller
Warner Bros / NOS

1 Comment on A guerra no espaço e no tempo

  1. “Sniper Americano” é um filme bastante interessante e apesar de ser algo monótono não se torna aborrecido, o que é bom. O tom de monotonia dá-lhe mais suspense, drama e algum realismo.
    Análise integral em: http://osfilmesdefredericodaniel.blogspot.pt/2015/02/sniper-americano.html
    4*

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