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‘Projecto Troika’: Fotografar a ditadura do empobrecimento

Texto: MARIA JOÃO CATEANO

Oito fotógrafos e um realizador fazem o retrato do país em 2014, à procura de um futuro depois da intervenção da “troika”. Um livro que é um manifesto.

Foto de Bruno Simões Castanheira

O Sorriso. Foi este o título que Paulo Pimenta deu ao seu ensaio fotográfico. Nele encontramos Susana, 33 anos, desempregada depois de 14 anos num escritório de contabilidade. Manuel, sem casa, com a vida metida em sacos plásticos, dependente do Rendimento Social de Inserção. Joana, desempregada há dois anos depois de ter trabalhado a recibos verdes, sem direito a subsídio, a morar em casa dos pais. Alcino, 70 anos, a dormir num colchão numa casa que partilha com os filhos – seis pessoas a viverem de 300 euros. E outros como eles. Nenhum sorri. Os sorrisos do título ficam por conta dos políticos, portugueses e estrangeiros, que nos últimos anos impuseram a austeridade ao país. Lado a lado, as imagens de uns e de outros, contam a história de Portugal desde que, em 2008, a crise do sistema financeiro impôs a austeridade como palavra corrente e, depois, em 2011, a troika aterrou em Lisboa, para resgatar o país da falência mas não da miséria.

Essa é também a história em que assenta o “Projecto Troika”. Oito fotógrafos (Paulo Pimenta, Rodrigo Cabrita, Lara Jacinto, Adriano Miranda, António Pedrosa, Bruno Castanheira, José Carlos Carvalho e Vasco Célio) e um realizador (Pedro Neves) testemunham os efeitos da intervenção da “troika” no país. Com o olhar de jornalistas, que são, mas, também, com o olhar de quem quer ir para além das notícias. Como se, perante, as notícias dos cortes nos salários, do aumento dos impostos, dos números do desemprego, os fotógrafos desviassem a câmara dos protagonistas que estão constantemente sob os holofotes e a apontassem para o lado oposto perguntando: e agora? o que sobra? como continuamos?

O próprio projecto é, em si, um manifesto. Tal como já tinha acontecido com o 12.12.12. (livro e exposição), em que parte deles já tinha trabalhado, os fotógrafos lançaram-se na aventura sem quaisquer apoios, recorrendo, como há dois anos, ao crowdfunding. Cada autor teve liberdade para trabalhar o tema como quis e os resultados são bastante distintos – quer na forma, quer no conteúdo. Ou talvez não. Se em 12.12.12 a crise estava bastante presente mas ainda havia uma ténue esperança que se adivinhava em alguns dos ensaios, no Projecto Troika não existe mais luz ao fundo do túnel. Estamos nus, completamente nus, como aquelas pessoas que Adriano Miranda fotografou no seu ensaio, Os despidos.

Ao longo das páginas do livro, e também no documentário Acima das nossas possibilidades, estão as histórias de quem perdeu o pouco que tinha – o trabalho, os amigos, a saúde, a casa, o bem-estar, a alegria. Perda é o sentimento que atravessa todos os ensaios. Desemprego é talvez a palavra mais vezes repetida. É quase sempre por aí que tudo começa. No precário orçamento de muitas famílias portuguesas, o desaparecimento de um ordenado ou de uma prestação social significa o descalabro. De remediado a pobre vai um passo demasiado curto. De pobre a mendigo outro. Sem conseguir fazer face às despesas fixas de uma casa, aqueles que não têm uma rede familiar forte rapidamente se vêem na rua. É ver o filme de Pedro Neves e ouvir o que ali se diz, na primeira pessoa, com uma voz envergonhada. “Como é que eu cheguei a este ponto?” Pensamos que só acontece aos outros e no entanto.

Projecto Troika é, por tudo isto, mais do que um livro de fotografia de um grupo de excelentes fotógrafos. É um espaço de denúncia. E de questionamento. De revelação. “Muitas vezes as coisas parecem-nos normais porque acontecem todos os dias. Tornaram-se invisíveis”, escreve Nuno Ramos de Almeida a propósito do ensaio de Bruno Castanheira, A ditadura do empobrecimento. “Nestas fotografias, os invisíveis aparecem-nos como são.” E, nós, os que agora os vemos, podemos ficar indiferentes?

‘Projecto Troika: Um documento visual para memória futura”
de Paulo Pimenta, Rodrigo Cabrita, Lara Jacinto, Adriano Miranda, António Pedrosa, Bruno Castanheira, José Carlos Carvalho, Vasco Célio e Pedro Neves
Publicado por Duelo do Silêncio – União Cultural, 2014

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