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Um Tremor na ilha de São Miguel

Texto: TIAGO RIBEIRO

Num momento complexo para a realização de festivais insulares, o Tremor dá a volta contrária sobre si próprio e redefine um conceito baseado na antecipação, no risco e no atrevido catálogo de artistas que faz transportar até à ilha de São Miguel, nos Açores.

Depois de no ano passado ter conhecido o seu ano zero, o festival Tremor tem já data marcada para a edição de 2015. É a 28 de março, propondo a mesma agitação e desassossego instalados por mais de 24 horas na pacata cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Para este ano estão já confirmados Medeiros/Lucas, o novo projeto dos criadores do O Experimentar Não M’incomoda, o psicadelismo decibélico dos barcelenses Black Bombaim, Sensible Soccers, autores de 8 e os catalães ZA!, numa estreia internacional do festival Tremor.

Além do contínuo empenho em dinamizar o centro histórico e o comércio tradicional da cidade, imaginem-se concertos que vão do Teatro à Igreja, do Coliseu à Galeria, do Centro Comercial ao Restaurante. E se isso for pouco, basta falar que a música propõe-se à exploração do resto da ilha, concedendo experiências únicas e surpreendentes aos espectadores em plena comunhão entre música, natureza, locais inesperados e os melhores produtos da região.

O Tremor é o resultado de uma parceria entre a agenda cultural Yuzin – sediada em Ponta Delgada – e a Lovers & Lollypops – produtora portuense, durante um dia inteiro o Tremor apresentou 19 concertos em 11 espaços diferentes do centro histórico de Ponta Delgada, desde bares, lojas do comércio tradicional, uma igreja, uma galeria de arte e o Teatro Micaelense.

Baseado num complexo puzzle de sinergias que envolveu a comunidade, entusiasmou órgãos municipais e governamentais, e moveu cidadãos, artistas e comércio, o Tremor deixou já a marca de invasão na cidade que recebeu durante um dia inteiro alguma da melhor Nova Música Portuguesa. Entusiasmo, pertença e empenho foram palavras-chave na criação de uma cidade sem espectadores, onde cada cidadão foi ator e convidado a participar ativamente nos preparativos, com a presença nas ruas e nos concertos, e na ignição de uma vibração urbana coletiva.

O sonho da empreitada foi criar vida e movimento na sua cidade de acolhimento através da música, ajudando a combater o recente fenómeno de desertificação do seu centro, e a depressão do comércio tradicional. Mas também, e de forma bastante particular, o apelo patenteado à mobilidade das pessoas como um convite a conhecer novos lugares da ilha e atravessar ambientes físicos e humanos diferenciados sempre marcados por informalidade e proximidade nas relações palco, plateia e cidade.

O Tremor é, por isso, um festival contextual, pensado e erguido em Ponta Delgada, ali entre Lisboa e Nova Iorque, apostando em coordenadas habitualmente tidas como periféricas, propondo-se a criar um novo centro em pleno Atlântico que convida a descobrir muito além do cartão postal. Destaque-se também que o Tremor acontece em pleno Inverno, na semana que antecede a Páscoa, funcionando como um evento musical único na estação, e promovendo conteúdos musicais fora da época alta.

De realçar ainda que, em 2014 o cartaz do Tremor apostou 99 % na Nova Música Portuguesa (havia 1 argentino!), investindo na programação de músicos açorianos com o objetivo de dar a descobrir a produção regional. Espírito de descoberta determinou um cartaz eclético que foi da pop, à música eletrónica e ao rock psicadélico, até à promoção de encontros improváveis entre artistas. Foi nos Açores que se deu o primeiro encontro entre Filho da Mãe e Jibóia, que para a ocasião tornar-se-iam Jibóia da Mãe, e o poderoso concerto entre a guitarra de Memória de Peixe (Miguel Nicolau) e a bateria de Torto (Jorge Queijo). Mas o Tremor também se caracterizou no seu primeiro ano de vida pela sua interdisciplinaridade, por uma programação artística paralela que contou com cinema, poesia, conversas, uma exposição de ilustração, dando mote e promoção a artistas e associações locais nesse feito, e encorajando a comunidade a criar eventos e concertos paralelos.

Fizeram parte do cartaz da primeira edição: Noiserv, Federico Lamas, Nex, TORTO, Jibóia, Filho da Mãe, Sara Cruz, Self Assistance, The Glockenwise, Lulu Mondo, Jorge Coelho, Mirror People, Sequin, Teresa Gentil, Lovers & Lollypops Soundsystem, Memória de Peixe e Gonçalo.

A pouco mais de dois meses da sua segunda edição, o Tremor inicia um ciclo de residências artísticas que incitam à colaboração entre músicos: músicos e entidades locais, músicos e artistas de outras áreas, fomentando localmente a transmissão de conhecimento através de workshops abertos ao público, com o objetivo de estimular Ponta Delgada como estaleiro de criação musical e cruzamento entre disciplinas.

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