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Uma galáxia de sonhos pop chamada M83

Texto: PEDRO PRIMO FIGUEIREDO

Foram buscar o nome a uma das mais próximas e brilhantes galáxias espirais. Espacial, acrescente-se, não é um adjetivo errado no global da obra dos M83. Enquanto não aterra o sucessor de ‘Hurry Up, We’re Dreaming’, de 2011, chegam-nos as reedições dos três primeiros discos dos franceses guiados pelo astronauta pop Anthony Gonzalez.

Fundados em 2001 por Anthony Gonzalez e Nicolas Fromageau, os M83 são um feliz projeto que cruza cinema e música sob variadas formas. O álbum de estreia, por exemplo, é um trabalho de eletrónica paisagística e ambiental cujas únicas vozes que se ouvem são excertos de filmes e séries – Paris, Texas e Nosferatu andam por aqui, por exemplo. Mais a mais, as canções do disco, quando lidas de seguida, compõem uma pequena história – cuja música que a serve pode servir de banda sonora imaginária. Nos anos mais recentes, a ligação mudou o foco: desde o último álbum de originais, em 2011, dos M83 chegou apenas música feita para filmes, no caso Oblivion e You and the Night. Música, cinema, espaço e sonhos são as partes que unem o todo que é esta cápsula sonora nascida nos Alpes.

As reedições que no final de 2014 chegaram ao mercado dizem respeito aos três primeiros discos do grupo, cujas edições físicas esgotaram há muito: M83, de 2001, Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts, de 2003, e Before the Dawn Heals Us, em 2005, foram os primeiros tomos de um grupo cujo mediatismo recente levou os fãs a pedir novas edições para as músicas do começo, entretanto perdidas das lojas e ausentes de prateleiras menos atentas aos primórdios dos M83. Com efeito, foi em Saturdays = Youth (2008) que o grupo deu salto maior, aparecendo regularmente em publicações alternativas e recolhendo simpatia indie com temas como Kim & Jessie, por exemplo. Antes havia vindo ainda Digital Shades Vol.1 (2007), mais ambiental e instrumental, e posteriormente viria então Hurry Up, We’re Dreaming, disco épico e intempestivo, tão alegre e efusivo quanto introspetivo e sonhador. Repartido entre dois discos, é um álbum que, em cada CD, retrata os sonhos de um irmão e uma irmã, cruzamento estético e musical complexo, que deve tanto ao shoegaze como a eletrónicas recentes. Parente distante – pelo menos no conceito – de Mellon Collie and the Infinite Sadness, dos Smashing Pumpkins, trouxe os M83 à linha da frente do respeito indie do século XXI. Mas o tempo é, agora, de olhar para o espelho e voltar atrás nesta história.

Por partes: M83, a estreia homónima, não é a porta de entrada certa para este mundo, embora faça todo o sentido no global do grupo. É um disco para os devotos e os curiosos, um álbum logo – mais de 70 minutos – pontuado por momentos ambientais e texturas elegantes, mais preocupado no contar de uma história e no desenvolver de uma narrativa do que com a feitura de canções que vivam por si só. Dois anos depois, a história era outra: Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts é também um todo superior à soma das partes mas cuja escuta isolada não desvanece o sentido da obra, antes permite o foco em elementos à partida não presentes. Ouvido mais de uma década sobre o seu lançamento, permanece fresco e hiperativo. E era já um disco de sonho. Viria a apresentar as primeiras grandes cantigas do grupo – Unrecorded ou Run Into Flowers, por exemplo – e seria o último trabalho concebido pelos artesãos Anthony Gonzalez e Nicolas Fromageau, com o segundo a abandonar os M83 logo depois da saída do disco (viria a formar os Team Ghost).
Ficou Anthony e veio então Before the Dawn Heals Us, o consolidar de uma estética e o culto. Aqui, os M83 deram maior foco às guitarras e desenvolveram uma obra inatacável, que alia o melhor de dois mundos: a viagem e o conceito à escrita pop alicerçada em canções catárticas algures entre a pista de dança e uma certa rebelião punk. Ambicioso e espacial, é obra para agradar a fãs de My Bloody Valentine, adeptos de eletrónica mais vanguardista ou, pura e simplesmente, a quem procura o que muitos tentam e nem todos conseguem: boas canções. Teen Angst, Don’t Save Us From The Flames, Moonchild e o longo desabrochar de luz que é o tema final Lower Your Eyelids to Die with the Sun são peeças imprescindíveis para entender a mente pop de Anthony Gonzalez.

A juntar às reedições físicas há ainda diversos lados-b e remisturas disponibilizadas em formato digital. O futuro ditará os novos sonhos de Anthony Gonzalez. Com a certeza única de que estamos num filme sempre pop.

“M83” (2001)
Naïve / Popstock
( 3 / 5 )

“Dead Cities, Red Seas & Lost Ghosts” (2003)
Naïve / Popstock
( 4 / 5 )

“Before the Dawn Heals Us” (2005)
Naïve / Popstock
( 5 / 5 )

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