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Escrever foi um engano

'Retrato de um homem a escrever no seu escritório', de Gustave Caillebotte (1885)

Diz-se que um escritor que se preze não plagia, rouba. Assim, sem pensar duas vezes, assumindo o roubo como se isso o salvasse da cadeia. Eu adoro roubar coisas. Adoro intertextualidade, saber que aquilo não é meu e que daquilo me apropriei. Adoro que percebam isso e que mo digam. E, mais ainda, adoro dizer que o fiz. Escrever é, sempre, um engano.

Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão, não é? E o Carlos Saraiva Pinto, no ano da graça de 2000, teve a sensatez de roubar o título destas thinking pieces ao Jaime Gil de Biedma. E eu, com todo o descaramento, roubo-o a ele. Não gosto de enganar ninguém.

Minto. Gosto de enganar e de me enganar. Enganar é um verbo transitivo porque permite a salvação. Quem nunca se engana (ou raramente tem dúvidas, para citarmos o providencial que se diz presidente do burgo), não ganha a possibilidade de emendar a mão. Está sempre fechado num castelo, paredes por todos os lados, sem um bocadinho de corrente de ar que seja. Eu gosto pouco de correntes de ar. Mas só porque sei que existem – quando chegam posso agradecer os dias em que não as tive.

Enganar é falhar melhor, como escreveu Beckett. É tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor. É estar numa bifurcação na estrada e perceber que, seja como for, todos os caminhos vão dar, eventualmente, a Roma. Por isso, enganar não impõe um erro final e definitivo, apenas um desvio até que a coisa se acerte.

E só vai ao engano quem tem vontade de ir a algum lado. Os que ficam – dizem que o verbo ficar é intransitivo, e eu acredito – acabam sempre por ser demasiado certos nas coisas que fazem. Eu gosto de ir ao engano, que me enganem quando estou a ler, de enganar quando escrevo o que quer que seja. Porque depois sei que me redimirão ou que eu o redimirei. Enganar é um acto tão humilde para quem é enganado como para quem engana, assim se perceba o erro e se possa, finalmente, acertar. Mas só até ao próximo engano.

Escrevi há uns meses em parceria com o Henrique Cymerman, um livro sobre a visita do Papa Francisco à Terra Santa. Fiquei contente com o resultado porque fiquei contente com as reacções a ele dos leitores para quem foi escrito; e de alguns amigos que que, de tão próximos, só me enganam quando quero. O primeiro texto para o livro foi escrito no aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. Horas à espera do avião e a ideia de colocar em papel um dos maiores enganos que me deixei ter. Enganei-me também aí, claro. Porque tão engraçado foi todo o episódio, tanto me ri ao escrevê-lo e ao lembrá-lo, que não fez sentido vê-lo incluir-se no livro. Ficou pendurado como falsa partida. Acabei por partir com mais certeza depois, na certeza ainda mais certa de que sem esse engano não havia livro que se seguisse. Deixo-o aqui, enorme. É a história do jornalista que procurou o Papa em Jerusalém na companhia de duas repórteres italianas e dois monges franciscanos. Durante duas horas, soube-me mais na Vida de Brian dos Monty Phyton do que na Cidade Santa. E valeu muito pouco a pena porque não tive pena nenhuma de percorrer aqueles quelhos milenares com um tripé às costas.

Deixem-se ir ao engano.

 

FRANCESCA

Chamava-se Francesca. Os olhos muito azuis, pouco mais de metro e meio de gente, um sorriso demasiado agridoce para apenas vinte e três anos.

O jornalista português entrara pela Porta de Sião e caminhara por entre as ruelas da cidade velha de Jerusalém procurando a Igreja do Santo Sepulcro onde o Papa Francisco estaria em breve. Rapidamente perceberia que o free pass era tudo menos pass; que, quando muito, daria direito a uvas, dois ou três doces e algum sumo no press center do hotel Mamilla. Numa das ruelas, a polícia israelita barrara-lhe a passagem. Não contente, meia dúzia de ruelas depois, a polícia voltara a barrar-lhe a passagem.

– It’s closed.

– Press.

– No, closed.

E é aí que está Francesca.

Com Elisabeta, outros olhos azuis mas de um querer profissional que só a maturidade que mais quatro anos na casa dos vinte permite, e dois frades franciscanos. Dois velhotes. Um calvo, bata castanha e a corda à cinta, pendente; o outro quase idêntico, apenas um pouco mais velho e o cabelo muito branco, certamente já na casa dos setenta e o símbolo da ordem preso no hábito a que se soma, qual estudante universitário muito cheio de si, um iPad seguro junto ao peito. Francesca e Elisabeta trabalhavam para a TV Pace do Vaticano, os coletes de repórter, as malas e as câmaras às costas. E aqueles dois franciscanos já idosos mas muito dados às novas tecnologias tinham uma missão. Não era ouvir o que se chama também Francisco. Não de perceber do que se trata a viagem, do ecumenismo, do encontro que aconteceria em breve com Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla. Não. Era, outrossim, permitir às duas italianas que gravassem alguma coisa. Alguma sendo aqui uma hipérbole. Qualquer – qualquer coisa que remotamente pudesse ter a ver com a estadia do Papa, com aquele primeiro dia de visita a Jerusalém.

O jornalista português percebe entretanto que algo ali pode ser diferente e caminha a passo largo – pensando como a ordem franciscana permite bons pulmões, dada a velocidade de ambos os frades – atrás dos dois e das duas. As mesmas ruelas, mesmo se percebendo que nada nem ninguém as e o poderiam levar a chegar perto, nesta ocasião, do Santo Sepulcro. E aí sim, Francesca.

Ele dispôs-se a carregar o saco, por simpatia. O sorriso agridoce, a vontade expressa nos olhos azuis em sobrevoar o mediterrâneo até casa ou até outro sítio que pudesse chamar casa, isso pediam. Francesca, repórter de imagem como Elisabeta, primeiro estranhou o jornalista português que parecia querer acompanhá-las para os acompanhar a eles para acompanhar o Papa. E o jornalista disse-lhe que não, que não carregaria o saco por isso mas porque pouco mais de metro e meio de gente com um sorriso tão triste não merecia carregar sacos tão pesados. Mas disse também que sim, que as acompanhava para os acompanhar a eles para acompanhar a possibilidade de acompanhar o Papa. Que, sabia, era quase impossível. Mas milagres acontecem e, afinal, estavam em Jerusalém. Ela sorriu, um sorriso um pouco menos agridoce pela honestidade e disse por mim tudo bem, mantendo o saco ao ombro e, à terceira tentativa de cavalheirismo respondendo, está vazio, não é preciso.

As ruelas, o mercado da carne do quarto árabe da cidade velha de Jerusalém. O cheiro a sangue no meio das ruas estreitas e rebaixadas. Os árabes demonstrando porco mesmo que vaca como quem quer demonstrar carne para dizer não kosher. É uma cidade de ressentimento, Jerusalém. E tudo o que possa subliminarmente dizê-lo merece ser aproveitado.

Os Cinco e a Ilha do Tesouro ou, se quisermos, Os Cinco e o Santo Sepulcro ou, menos poético mas mais verdadeiro Os Cinco e a Necessidade Imperiosa que as Meninas Levem Alguma Coisa Gravada para Casa. Duas meninas italianas, dois frades franciscanos e jornalista português de nome Tim. Enid Blyton não imaginaria melhor enredo.

Depois de mais duas esperadas recusas para aproximar as câmaras do Santo Sepulcro, e no momento em que a terceira tentativa estava, conforme esperado, também a gorar-se, um patriarca ou bispo ou cardeal ou algo de muito importante caminhava de encontro à barreira policial, vindo da área reservada e com um grupo de importantes acólitos. Iria virar à esquerda no cruzamento, sempre dentro da reserva que o calvo franciscano tanto nos fazia perseguir. Impossibilitado de cruzar com ele aquelas ruelas, o calvo franciscano disse então ao que veio e, num italiano irrepreensível, ordenou, rápido, é o Monsenhor, liga a câmara e grava! Elisabeta colocou num ápice a câmara no tripé, apertou-a no encaixe, carregou em botões, focou, estava tudo certo, iria gravar um Monsenhor algures numa ruela em Jerusalém. E Francesca, ainda mais rápida e desinteressadamente, ajudou dando os materiais que a técnica necessita para efeitos tão técnicos. Gravou. Ou então não, que algo aconteceu. Irritada, Elisabeta percebeu o seu erro e disse, em voz baixa para Francesca, não gravei nada, com medo que o calvo franciscano, acompanhado pelo septuagenário carregador de iPad, o descortinasse.

Nessa altura o jornalista português disse a Elisabeta que lhe levava a câmara e o tripé às costas, agora que necessitavam de continuar a correr à procura de que não encontravam. Estava a ser demasiado interessante esta necessidade imperiosa de um franciscano ajudar duas jornalistas italianas a gravarem o que quer que fosse para não se tornar roadie das meninas e continuar a odisseia. Francesca sorriu, um sorriso ainda menos um bocadinho agridoce, percebendo desta vez o calculismo. E o jornalista carregou o peso da história ao longo de algumas centenas de metros que pareciam uma maratona – a cidade velha de Jerusalém, os seus mercados intestinos, sobe mais do que desce. Ou assim parece.

A próxima paragem, já o franciscano percebera a entrada no grupo do jornalista português e a aceitara obviamente a contragosto, era a sede de um patriarcado católico onde, disse, do telhado verás o Papa passar em duas ruas a caminho do Santo Sepulcro. Se não chegamos ao centro, filme-se a periferia, pensou-se. E lá foram os cinco, com o Tim a salivar pela falta de água e pela dor nas costas. Mas eis que o simpático guardião do patriarcado disse nem pensar, se alguém abre a janela para onde quer que seja ou sobe ao telhado leva um tiro. A segurança israelita tem ordens expressas para atirar a matar. Fomos avisados, repetiu três vezes, “e três vezes do leme as mãos ergueu”. O jornalista percebeu que talvez fosse altura de passar a câmara e o tripé à Elisabeta dizendo que se quisesse tentar, afinal um repórter de imagem tem de fazer tudo por um bom ângulo. Ela agradeceu, sorrindo, disse que talvez não. Mas a vontade do calvo franciscano era indómita.

– Subamos ao telhado!

E subimos.

Nesta altura já Francesca dissera que estava há dois meses em Jerusalém. Que deixara o curso de arquitectura para perseguir outras coisas e pensou que em Jerusalém poderia sentir algo mais que a tristeza que sabia sua. Não sentiu. Carregava material para Elisabeta, também esta indómita na sua vontade de ser uma boa repórter de imagem. Indómita Elisabeta como o calvo franciscano. Que Francesca, essa, percebera entretanto e confirmava-o agora nesta odisseia sem sentido que o seu futuro não era perseguir gambozinos a mando de franciscanos, mesmo que o gambozino se chama-se Francisco e fosse Papa. O jornalista português percebeu o sorriso agridoce e a vontade de fugir que ele parecia trazer. Mas quando se preparava para retorquir, o elevador abriu a porta no telhado.

Lá, o calvo franciscano poder-se-ia dizer contaminado pela loucura securitária israelita. E na altura em que o telhado se apresentava aos dois, ele, que já subira numa primeira leva, e vendo três polícias no outro canto, estacou.

– A elas conheço, a si não.

E o jornalista foi então revistado por um franciscano. Para tudo, bem dizem, há uma primeira vez. A questão é se também para ele a terá sido.

No telhado montou-se o tripé. Os polícias disseram que não, mas o guardião do patriarcado que com eles subira ao telhado tentou com telefonemas e a vontade entregue por osmose pelo calvo franciscano que mudassem de opinião. Afinal, o Papa Francisco passaria naquelas ruelas, em baixo, no seu papamóvel. O jornalista português, lembrando o início da conversa com Francesca, perguntava-lhe, mas não dissestes que estiveram ontem em Belém, bem mais próximas dele e sem que se parecesse que faziam parte de um filme do James Bond? E com um encolher de ombros, misto de cansaço e desistência, respondeu.

– Sim…

Mas eis que, como nos filmes, há um helicóptero. E o calvo franciscano, dirigindo as operações, ultrapassando polícias e guardiões, diz a Elisabeta:

– Filma! Filma! É o helicóptero do Papa!

Francesca e o jornalista português olham um para outro. Será pena ou diversão, o que diz cada um dos olhares? Elisabeta aponta a lente e percorre o céu focando o helicóptero. Que, como se reparava com facilidade se não tolhido pela odisseia, era da polícia.

– Francesca, Elisabeta será uma óptima jornalista. Basta-lhe escolher melhor que helicópteros filmar. – Sussurra o jornalista português.

Nada feito. De nada valera a revista franciscana. Os polícias receberam um telefonema e ouviram tirem-nos daí. Em amena celebração, Francesca e o jornalista, em completa frustração, o calvo franciscano, o seu septuagenário e tecnológico colega, todos desceram com Elisabeta e o guardião até à entrada, desculpando-se este, como puderam ver, fiz tudo o que pude fazer.

E fez. Nova necessidade de correr, que o tempo parecia começar a escassear, percorremos entretanto praticamente toda a Cidade Velha, de sul a norte, o jornalista português, que entrara na Porta de Sião, com toda a certeza, as repórteres italianas com alguma, que a Porta de Jafa estava fechada há horas. Já Francesca dizia mal do abandono celebrado do telhado, para todos os efeitos, lá ainda existiam três cadeiras. E essa correria levou então a um portão que, num ápice, o calvo franciscano abriu, porta dos fundos daquela que, saber-se-ia depois, era a sede da ordem franciscana na cidade santa. Como num filme até então e mais ainda nesse momento: os cinco caminhando sem barulho pelo corredor para conseguirem, mais uma vez, subir ao telhado e, finalmente, do lado Norte, talvez ver o Papa Francisco passar entre o muro da cidade velha e o Notre Dame Center. No telhado muito vasto, percorrido em completa loucura, depois de como personagens de um filme de acção termos saído à vez do elevador, o calvo franciscano à frente, com a mão nos lábios primeiro e com a outra a dizer depois podem vir, procuramos todos o melhor ângulo para a gravação que se impunha.

O calvo franciscano dava as ordens e os polícias, ao longe, no telhado do patriarcado, abriam os braços pensando mas que raio foram eles fazer para ali? Era o filme da sua vida, este. Com Elisabete a pontar a lente novamente para o helicóptero, para o Notre Dame Center, para Jerusalém Este, para a rua em baixo porque existiam duas sirenes. E, finalmente, para ele, realizador e entrevistado sobre a visita do Papa Francisco. Finalmente.

Francesca dissera entretanto da sua procura, da sua pouca felicidade nos últimos anos. O jornalista falou-lhe dos Monty Python, afinal A Vida de Brian poderia ser um bom exemplo para dar a quem estava em Jerusalém e precisava de sorrir mais. Apontou o título do filme e o jornalista pensou se o sorriso de Francesca seria também o de Francisco se visse a Frente Popular da Judeia a debater com a Popular Frente da Judeia para ver quem libertaria primeiro o território do domínio romano. Soube que sim, que o Papa que chama aos judeus os irmãos mais velhos não se coíbe de brincar com o que tantos acham demasiado sério – o sorriso. E mais apontou Francesca, o nome da canção, trauteada: always look on the bright side of life. E percebeu que a felicidade não é mas está, que aquela hora de caça ao tesouro, de dois franciscanos, duas italianas e um jornalista chamado Tom em Os Cinco e a Necessidade Imperiosa que as Meninas Levem Alguma Coisa Gravada para Casa tinha sido um pouco bem muito de felicidade. Para ele, para Elisabeta, que tinha percebido estar na profissão certa (assim comece a acertar nos helicópteros a filmar), para o septuagenário franciscano, que também entrevistado percorrera toda a odisseia com a serenidade monástica necessária de iPad em punho, para ela, que se divertira e aprendera que a felicidade pode acontecer em Jerusalém nas alturas mais estranhas. E, claro, para o calvo franciscano, que não só se tornara realizador, ajudando as duas meninas e cumprindo assim a sua boa acção diária, como acabara por ser devidamente entrevistado na sua sede para a TV Pace do Vaticano.

O jornalista português desceu então para a rua, deixando Francesca entregue ao seu futuro. E pensei: hei-de escrever um texto sobre o Francesca entregue ao seu futuro. E pensei: hei-de escrever um texto sobre esta odisseia. E há-de começar assim:

– Chamava-se Francesca.

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