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Michel Vaillant: o ‘reboot’ de um campeão

Texto: NUNO GALOPIM

Os três álbuns já lançados na ‘nouvelle saison’ de Michel Vaillant revelam algumas afinidades por opções da atual ficção televisiva.

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Telemóveis a tocar ao som dos Daft Punk, um possível futuro feito de motores elétricos, hackers, imprensa cor-de-rosa, fotos em reuniões tiradas com smartphones, vídeos vitrais na web… Estas são algumas das marcas de identidade no tempo que encontramos, desde 2012, entre as páginas de uma nova etapa na vida de Michel Vaillant. Tal como sucedeu com Star Trek nas mãos de J.J. Abrams, um reboot, mais que uma mera continuação, reativou este universo. Não foi coisa unânime (e nunca é, quando há um legado desta dimensão em jogo). Mas ao cabo de três álbuns começa a ficar claro que, mais que em outras “famílias” da BD franco-belga, a segunda vida de Michel Vaillant (ou a primeira sem o envolvimento do seu criador) está a tentar propor algo diferente.

Criado em 1957 por Jean Graton, Michel Vaillant somava 70 álbuns (e já um volume significativo de volumes paralelos à série principal) quando, em 2007 a “bandeira de xadrez” desceu sobre a série. 24 Horas de Pressão, criado em parceria entre Jean Graton e o filho Philippe seria quase um volume de transição. Envolvido na série há já algum tempo, Philippe Graton foi (com o pai) cofundador da editora que gere os direitos da marca, estreou-se como argumentista em 1994 em A Pista de Jade (lançado entre nós com o Autosport em 2006) e em 1995 lançou a série Les Dossiers Michel Vaillant, cujo mais recente volume é dedicado ao circuito belga de Spa Francorchamps.

Tal como Jacques Martin concedera a passagem do testemunho a uma nova geração de desenhadores e argumentistas (se bem que num modelo diferente), assegurando desde cedo a continuação das aventuras de Alix (e de outros heróis), também Jean Graton entendeu que, aos 50 anos de Michel Vaillant, era chegado o tempo de passar o testemunho.

Lançado em 2012 Em Nome do Pai revelou primeiros sinais de uma nova vida assinada em equipa por Philippe Graton, juntamente com o também argumentista Denis Lapière e os desenhadores Marc Bourgne e Benjamin Benéteau. A história (com final em aberto, sugerindo continuação no volume seguinte), revelava – tal como na vida real – a passagem de testemunho dos destinos da fábrica do velho patriarca Vaillant a Jean-Pierre, irmão de Michel, envolvendo ainda o sobrinho do campeão no plano administrativo (e desportivo) da marca. Com uma temporada no campeonato de Turismo como cenário, a narrativa corre em paralelo um aprofundar da vida familiar dos protagonistas, da rabugice do velho Vaillant ao misterioso desaparecimento de Patrick, filho de Michel que, tal como uma jovem jornalista televisiva, entram em cena para constituir o elenco central daquilo que desde então se conhece como a ‘nouvelle saison’ de aventuras de Michel Vaillant. Esta ideia de alargamento do corpo “protagonista” a um elenco – e não apenas à figura de um herói – pode revelar, desde logo, uma certa afinidade com códigos da ficção televisiva. Afinal é nesse terreno que se faz alguma da melhor ficção do nosso tempo…

Voltagem (2013) e Ligação Perigosa (2014), envolvendo respetivamente a procura de um recorde de velocidade com um motor elétrico e um regresso pontual aos rallyes, completam com Em Nome do Filho um primeiro conjunto de álbuns que permitem compreender os caminhos que a nova série quer tomar.

Entre marcas da mitologia Vaillant – a figura de Steve Warson (agora rumo a uma carreira política no Texas), o ressurgimento da marca Leader ou a ocasional presença de personagens “reais” do desporto automóvel – a equipa comandada por Philippe Graton procura contudo uma nova identidade para a série. Apesar de inicialmente sugerido que haveria uma história com um arco narrativo a correr entre os três volumes, parece agora claro que, como numa série televisiva em continuidade, os livros de aventuras de Michel Vaillant são agora episódios de um todo em construção. Apesar de haver histórias pontuais que se lançam e resolvem em cada álbum (até aqui todas elas relacionadas com um feito desportivo), a medula da trama continua e adensa-se, lançando, depois de uma teia de relações familiares e profissionais, uma sugestão de que, nos bastidores, já uma jogada empresarial em construção.

O traço é diferente. É, de facto… A escolha dos espaços desportivos visitados (Turismo, carros elétricos e rallyes) é talvez mais tática que outra coisa, tentando lembrar aos seguidores da série que não está esquecida a multidisciplinaridade do campeão Michel… Virá a Fórmula 1 a seguir?… Mais que procurar um simples jogo de manutenção, parece contudo haver aqui uma vontade em, respeitando heranças, procurar caminhos novos… E lá voltamos às analogias para com J.J. Abrams em Star Trek… Tal como aí há quem goste e nem por isso deste tipo de opções… Mas entre as “next generation” do mundo da BD franco-belga, e são já algumas, a de Michel Vaillant parece mostrar vontade em fazer mais que apenas uma mera gestão de louros do passado. E confesso que fiquei em pulgas para saber como será, afinal, o regresso da marca à Fórmula 1… (mais outros dados da trama que, para evitar ‘spoiler’, não explicito aqui).

 

“Em Nome do Pai” (2012)
de Graton, Laipère, Bourgne, Benéteau
ASA, 56 páginas
ISBN 9789892325941

“Voltagem” (2013)
de Graton, Laipère, Bourgne, Benéteau
ASA, 54 páginas
ISBN 9789892325958

“Ligação Perigosa” (2014)
de Graton, Laipère, Bourgne, Benéteau
ASA, 54 páginas
ISBN 978989232874

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