Últimas notícias

Recordações de uma música assombrada

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição dos quatro últimos álbuns e o lançamento de uma nova antologia (com alinhamento escolhido pela banda) recorda a música dos Siousxie & The Banshees.

Foi há quase 40 anos… Corria o ano de 1976, Londres acolhia a vibração da revolução punk e uma das suas figuras mais marcantes dava uma primeira atuação no alinhamento do mítico 100 Club Punk Festival, não mostrando mais senão uma improvisação de 20 minutos em volta do tradicional The Lord’s Prayer… A estranha diva punk tinha a seu lado Steve Severin, juntamente com Sid Vicious e Marco Pirroni (que algum tempo depois seria o principal parceiro de Adam Ant)… Num caos em busca de nova ordem dava primeiros passos uma ideia que conduziria Siouxie Sioux e Severin a uma carreira que, de raízes punk, partiu rumo à construção de um espaço tenso e assombrado que, juntamente com alguns contemporâneos seus, acabariam por definir as bases do que então se veio a designar por rock gótico. Longe de se deixar definir por uma busca de identidade de género (musical, claro), o coletivo gravou uma sucessão de álbuns marcantes entre finais dos anos 70 e inícios dos 80, somando mesmo um êxito maior em 1983 com uma soberba versão de Dear Prudence, dos Beatles.

Como sucede com tantas carreiras o viço criativo do coletivo foi esmorecendo com o tempo, na verdade o gume da mais interessante invenção musical de Siouxie e Budgie (outra das almas dos Banshees) desviou-se a dada altura para o projeto Creatures, que acabaria por sobreviver à separação da banda. Excluindo o belo single de cenografia grandiosa que, ao som de Face to Face, criaram em 1992 para Batman Returns, de Tim Burton, a reta final da vida dos Siouxsie & The Banshees trouxe-nos nos anos 90 dois álbuns ali onde o mediano ameaça resvalar para pior. Apesar de um ou outro single interessante, a segunda metade dos oitentas também em nada repetiu também as visões e grandes ideias de outrora. As quatro reedições recentemente lançadas ilustram assim sendo as etapas menos nutritivas da carreira do grupo, mais interessante contribuição para a sua memória sendo a que agora nos chega com uma nova antologia que, sem repetir as anteriores – feitas de singles ou apenas de lados B – promove um olhar de síntese segundo um alinhamento selecionado por Siouxsie Sioux e Steve Severin. Mais que um baú de recordações para admiradores de outros tempos, este novo Spellbound – The Collection representa um bom cartão de visita para que, encantado com figuras recentes de calibre menor – de Zola Jesus às Dum Dum Girls, entre tantas outras divas do rock assombrado do presente – aqui pode encontrar a “real thing”.

Do lote de quatro reedições há dois títulos que justificam um reencontro. Editado originalmente em 1987 Through The Looking Glass é um disco de versões onde, de um alinhamento com autores bem interessantes – alguns deles talvez até inesperados – escutamos como a marca de personalidade vocal de Siouxsie e o som igualmente com região demarcada dos Banshees faz parecer suas canções de Iggy Pop, Kraftwerk, Roxy Music, Television ou Bob Dylan.

Um ano depois surgiria um outro disco que, mesmo sem repetir no seu todo os patamares de outrora, apresenta no seu alinhamento uma das melhores canções de toda a obra dos Siouxsie & The Banshees. Trata-se de Peak A Boo, que nasceu do acaso de um erro em estúdio, quando uma bobina foi escutada da trás para a frente. Peepshow foi, em 1988, o derradeiro episódio marcante de uma obra que o tempo injustamente foi depois esquecendo. Sem a teatralidade nem os jogos de ângulos e sombras dos primeiros álbuns, Peepshow é contudo um disco onde às heranças colhidas na sua própria experiência o grupo junta a busca de outros destinos, nomeadamente a placidez cinematográfica que emerge com belos resultados em The Last Beat of My Heart ou Carroussel. O alinhamento não evita contudo os sinais de algum cansaço que se vinham já a manifestar em discos anteriores e dominariam os dois álbuns que ainda estavam pela frente.

E pela frente estava, desde logo, Superstition (1991), uma visão ligeira da essência da sonoridade de discos anteriores e procurando pontes de relacionamento para com os sabores da época (como se escuta no single Kiss Them For Me), sob produção de Stephen Hague. E, mais inconsequente ainda, The Rapture (1995), com tarefas de produção dividias entre os elementos do grupo e John Cale, mas com aquela que foi talvez a coleção de canções mais em regime de dieta de ideias de toda a obra do grupo. O fim chegou pouco depois, discreto, e distante dos dias de glória de finais dos setentas e primeira metade dos oitentas. O que não nos impede de, a bem do importante legado que então nos deixaram, tentar que o silêncio não lhe dê igual destino que aquele a que votou esta reta final da carreira do grupo.

PS. Todas as novas reedições trazem temas extra, seja de lados B, singles editados fora dos alinhamentos dos álbuns ou remisturas da época.

“Through The Looking Glass” (1987)
CD, Universal
3 / 5

“Peepshow” (1988)
CD, Universal
3 / 5

“Superstition” (1991)
CD, Universal
2 / 5

“The Rapture”
CD, Universal
2 / 5

“Spellbound – The Collection”
CD, Universal
4 / 5

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: