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A arte do diálogo, segundo Anouar Brahem

Texto: NUNO GALOPIM

O tunisino junta ecos da cultura magrebina às linguagens do jazz e da música orquestral para criar ‘Souvenance’.

Quando, em 2009, Anouar Brahem lançava The Astounding Eyes of Rita a ideia de que o mundo árabe passaria por todo o conjunto de convulsões que fizeram notícia nos últimos anos não era certamente cenário que imaginasse. Ao regressar aos discos, agora, com Souvenance (em português “recordação”), o mestre tunisino, tocador de oud, confessa que, mesmo não sendo esta música uma reflexão ou consequência da chamada ‘Primavera Árabe’, a verdade é que esses foram acontecimentos que o marcaram profundamente pelo que, inevitavelmente, acabam por habitar as entrelinhas das peças que junta neste álbum duplo que, uma vez mais, edita pela ECM.

Se o oud é a voz central da sua identidade (pessoal e de genética cultural mais profunda), Anouar Brahem é contudo um homem que entende a expressão da música como uma entidade sem barreiras. Firme no expressar de uma identidade, sem dúvida (e por isso incontornavelmente ligada às geografias e historiografias do seu habitat), mas há muito que foi no desafio dos diálogos que encetou a construção de uma linguagem musical que, juntamente com a obra da grega Eleni Karaindrou, dele faz uma das “vozes” mais marcantes de uma expressão atual da cultura mediterrânica.

Nascido em Tunis em 1957 e com uma discografia que desde 1991 o coloca entre os nomes de referência do catálogo da ECM, Anouar Brahem assinou já colaborações com figuras maiores do jazz do nosso tempo como Jan Garbarek ou John Surman. Em Souvenance cruza os espaços de expressão de ecos da cultura magrebina com as presenças do jazz e da música orquestral diluindo fronteiras e esbatendo o que poderiam ser contrastes vincados para criar um conjunto de peças onde a melancolia dita o mote, o calor sugere o cenário e a placidez das notas e sonoridades em diálogo falam de um mundo maior. Aqui reencontra o piano de François Couturier (presença em vários títulos da sua obra), completando o quarteto com Klaus Gesing (clarinete) e Bjørn Meyer (baixo), a seu lado surgindo a Orchestra della Svizzera Italiana, dirigida por Pietro Martini. Sob produção de Manfred Eicher juntaram-se em Lugano em maio de 2014. Souvenance é, agora, a recordação física desse momento. Mas, acima de tudo, um exercício de memória e reflexão sobre a arte do diálogo (entre instrumentos, mas também tempos e culturas).

Anouar Brahem
“Souvenance”
2CD ECM / Distrijazz
( 5 / 5 )

PS. O músico tunisino, juntamente com os restantes elementos do quarteto, juntar-se-ão à Orquestra Gulbenkian para apresentar a música deste disco ao vivo, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, a 28 de abril.

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