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O Inverno da alma

Texto: SANDRA GONÇALVES

O alemão David Safier pôs os leitores a rir com ‘Maldito Karma’ (Editorial Planeta, 2011), mas agora, com ’28 Dias’, publicado em Portugal com a mesma chancela, mudou radicalmente de registo, conduzindo energicamente o seu séquito pelos horrores do nazismo e a insurreição no gueto de Varsóvia.

Embora inspirado em factos reais, a protagonista, uma jovem judia de nome Mira, nunca existiu. Safier faz questão de clarificá-lo. Após muita investigação e apesar da veracidade dos factos e dos episódios calamitosos que são do conhecimento geral, o escritor apercebeu-se que, mesmo no limite, os humanos são capazes de um grande altruísmo. E esta é a principal ideia subjacente nesta obra.

A história começa com esta jovem de 17 anos num mercado negro polaco. E prossegue com ela a juntar-se a um grupo de resistentes que se opôs às SS (Schutzstaffel) e que criou a organização ZOB, que vingou durante 28 dias. No gueto de Varsóvia os judeus eram mantidos em condições desumanas, forçados a trabalhar em fábricas para produzir para o regime nazi antes de morrerem à fome ou serem deportados para os campos de extermínio, sobretudo para Treblinka.

Mira é introduzida como uma jovem a tentar contrabandear comida do lado polaco para o gueto, onde irá tentar vendê-la para poder sustentar os seus familiares. Por mais insuportáveis que sejam as condições, Mira e a sua família conseguiram adaptar-se sem grandes conflitos, mas começam a circular rumores de que as SS vão matar todos no gueto.

“Que tipo de pessoa cada um quer ser?” Esta será uma questão que será reiterada ao longo de todo o romance. 28 Dias não se cinge a relatar o sofrimento no gueto. O foco é, sobretudo, a história desta jovem corajosa que tem que decidir que tipo de pessoa quer ser num mundo minado de crueldade, traição e preconceito.

Os eventos históricos são bastante rigorosos. Muitos já terão ouvido falar de Janus Korczak, o famoso professor e director de um orfanato que foi parar às câmaras de gás com as suas crianças mesmo sabendo que tinha a possibilidade de escapar. O seu orfanato é parte da história, uma vez que o namorado de Mira, Daniel, é um dos órfãos. Até Rubinstein, um homem que se fazia passar por louco e gritava “Todos iguais” enquanto saltitava pelas ruas lamacentas do gueto, existiu realmente.

A cronologia destes 28 dias foi subtilmente alterada, mas não parece ser particularmente relevante. Todavia, o título pode induzir em erro, uma vez que a trama começa vários meses antes destes fatídicos dias. Mas, se assim não fosse, sem contextualizar, ficaria muito mais difícil desenvolver a personagem de Mira, bem como descrever o crescente desespero por entre os habitantes do gueto.

Simon, irmão de Mira, juntou-se à polícia judia, um estádio intermédio entre os comuns judeus no gueto e as SS. Traiu a sua própria família, mas fê-lo na esperança de salvar-se a si próprio. A táctica empregue era sempre a mesma. Surgiam rumores de que um certo número de pessoas iria ser deportada, mas aqueles que possuíssem documentação estariam a salvo. Por conseguinte, todos tentavam a qualquer custo obter os documentos necessários. Mas tudo era em vão. A cada nova investida das SS as regras mudavam. Até Simon se viu obrigado a denunciar cinco judeus por dia para evitar as câmaras de gás. Além das traições, as constantes ameaças de deportação tiveram outros efeitos; a estratificação social no gueto diluiu-se.

Neste romance o leitor irá encontrar de tudo, desde o lutador, que acredita em resistir até à morte; ao mafioso, que faz descontos aos nazis no seu bordel à espera de tratamento especial; uma menina que cria o seu próprio mundo para escapar à realidade; um órfão que jamais faria mal a alguém, independentemente do que lhe pudessem fazer; e uma jovem que dá tudo para sobreviver e sustentar a sua família.

Apesar de 28 Dias ser um romance ambientado na Segunda Guerra Mundial, podia muito bem ser transposto para os dias de hoje. A mensagem é transversal, é um apelo ao desencorajamento contra a resignação e à necessidade de resistir.

David Safier
’28 Dias’
Editorial Planeta, 359 páginas
ISBN 978 989 657 588 5

1 Comment on O Inverno da alma

  1. Obrigada pela sugestão. Comprei, li, e gostei muito. Resistir é vencer, lá diz a canção, e é mesmo. Mesmo quando parece que não é.

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