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Os “Spotifys da vida” !

Texto: JOHN GONÇALVES

Logotipos de alguns serviços de 'streaming'

Tenho lido nos últimos tempos várias opiniões de artistas contra os serviços de streaming e com eco fortíssimo e amplificado em vários media.

Se Thom Yorke, Taylor Swift e muitos outros artistas não gostam deste sistema ou do modelo de distribuição do dinheiro desse serviço, acho muito bem que cada um deles escolha e decida o que melhor quer fazer com a sua arte e onde autoriza ou não a sua distribuição.

Tom Corson, presidente da RCA Records ao contrário destes e outros músicos que são contra os serviços de streaming, diz que “este modelo começa a fazer sentido para as pessoas e esperamos que o serviço “gratuito” se transforme exclusivamente em serviço “pago” passando a ser uma parte substancial da receita do negócio de música, num futuro próximo”

Eu como músico, editor e consumidor vejo nestes “Spotifys da vida” (como carinhosamente lhes chamo) o presente e o futuro do negócio da musica e acredito que “não só” deste modelo viverá a industria musical “mas também”, e defendo-o incondicionalmente.

O Spotify já tem 20 milhões de canções, a cada dia outras 20 000 são adicionadas no sistema, está disponível em 58 países – faltando basicamente África e Ásia – com 60 milhões de utilizadores registados e 15 milhões no serviço premium – pagando 9,99 dólares ou 6,99 euros por mês.

O Spotify distribuiu 500 milhões de dólares a editoras, publishers, distribuidores digitais e músicos entre 2009 e 2012, distribuiu 500 milhões de dólares em 2013 e 1 milhar de milhão de dólares apenas em 2014 o que representou 70% da sua facturação, pois a empresa retém 30% das receitas totais.

Cada milhão de audições gera hoje entre 6000 e 8400 dólares, mas a previsão da empresa é quando tiver 40 milhões de utilizadores premium registados, se possa multiplicar por cinco atingindo valores entre 30 000 e 42 000 dólares por cada milhão de audições.

Os números do Spotify quando comparados com o video streaming (3000 dólares/milhão), radio streaming (1500 dólares/milhão) ou rádio terrestre nos EUA (41 dólares/milhão) são muito superiores e mostram que o modelo de negócio está bem feito, pensa no futuro, em escala e paga mais e melhor que todos os outros.

Em vez de se “dizer mal dos poucos milhares de dólares que cada artista recebe hoje pelos seus milhões de audições”, deveríamos preocupar-nos em fazer com que cada pessoa que ouve música, pague os 6,99 euros do serviço premium.

No dia em que se atingirem 150 milhões de utilizadores premium (10 vezes mais que agora, mas apenas 10% de todos os utilizadores de Facebook no mundo) a renda mensal a distribuir será tão alta que aí, já não haverá ninguém contra este modelo de negócio. Para chegar a esse número há que convencer os consumidores que amam música, querem ouvi-la de forma ilimitada, em qualquer lado e de forma legal, a assinarem um serviço premium de streaming.

Não sei se daqui a dez anos o Spotify ou Netflix existirão – o mesmo serviço mas de TV e cinema já tem 57 milhões de utilizadores premium em todo o mundo, com 39 milhões apenas nos EUA e não existindo sequer opção grátis – mas o que sei é que o serviço de música e TV streaming estará nas nossas vidas de forma irreversível, mesmo que entretanto se inventem outras formas de distribuição de música.

Outra da grande polémica aberta com o streaming é que os valores recebidos pelos músicos e autores, não estão nem perto dos valores que o Spotify paga por cada canção ao distribuidor.

Se noutros sistemas o publishing e os direitos de autor eram algo muito protegido – por exemplo na rádio, o publishing ganha tudo e o dono do master não ganha nada – a verdade é que neste modelo, a maior parte do dinheiro que o Spotify paga vai parar às mãos do dono do master (editor) e não para os donos da autoria da canção que apenas recebem uma pequena parte.

Sendo assim, os músicos têm de assegurar desde já, que as percentagens que recebem da editora pelo streaming é justa e não baseada em acordos completamente desadequados da nova realidade e os autores deverão reenvidicar o que acham justo, mas não o façam pondo em causa o serviço.

Cada vez mais músicos distribuem directamente os seus discos através de distribuidoras digitais e por cada 1000 euros que um artista gerar em receitas de streaming, 70% vão para o distribuidor e 30% ficam no Spotify. Dos 700 euros que o distribuidor recebe, 20% a 30% (140 a 210 euros) ficam na sua empresa e 70% a 80% (490 a 560 euros) são para o musico/editor/publisher/autor o que é um valor muito mais alto que alguma vez recebeu no formato de venda tradicional.

O problema é que, da mesma maneira que numa loja cheia de discos só alguns vendem, é normal que num espaço virtual com “quase” todas as canções do mundo, a promoção, os meios de divulgação, os media continuem a ter um papel decisivo nas audições que serão depois contabilizados pelo serviço de streaming e ninguém poderá acreditar no milagre dessas audições sem promoção e marketing forte.

A Apple anunciou o serviço Beats, a Google tem o Google Play o YouTube tem Music Key e a Amazon tem o Prime, além de centenas de outros serviços de streaming espalhados pelo mundo.

Isto significa que deixei de comprar discos? Não, continuo a comprar discos digitais no iTunes, CDs físicos e vinil nas lojas de discos e algumas outras edições na banca de merchandising de vários concertos. O problema é que num futuro próximo provavelmente será exactamente nessa banca de merchandising que os discos, edições especiais, livros, DVDs e edições em vinil das nossas bandas favoritas vão estar disponíveis – ou na sua página online.

Isso mesmo, passarão a contar como item de merchandising e continuarão a ser objectos lindos, preciosos e que eu vou continuar a comprar até ao ultimo dia da minha vida, colocando-os nalguma qualquer prateleira de casa. Mas quando quiser ouvir música no carro, na praia, na rua ou em qualquer outro lugar o mais provável é que esteja a ouvir uma qualquer playlist dum qualquer “spotify da vida”!

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