Últimas notícias

Xinobi: “Comecei a ouvir música electrónica porque um professor me emprestava discos”

Texto: NUNO GALOPIM

Usa o nome de um velho jogo… Xinobi. Começou a fazer música no quarto, e mesmo estando a bordo dos Vicious 5 não deixou de trabalhar com electrónicas. A sua música emergiu no MySpace, ganhou um lugar na Discotexas (da qual é um dos fundadores) e em 2014 editou 1975, um álbum que assinala um passo em frente numa carreira em construção. Fomos escutar parte dos episódios da sua história até aqui…

Tem uma vivência pop/rock nos Vicious 5. Já havia ali, ao mesmo tempo, um interesse por outras músicas?

Eu já fazia música sozinho, com um cariz mais electrónico. Chegava a casa, vindo da faculdade, e fazia música sozinho. Gostava de continuar a criar…

Estudava…
Belas artes.

E essa música era pública ou um prazer solitário?

Era prazer solitário.

E quando é que essa música começou a ser partilhada?

Foi no MySpace. Experimentei pôr três ou quatro temas online e fui ganhando algum feedback positivo. E acabei por receber bookings para tocar. Inclusive dois fora de Portugal e achei aquilo tudo muito estranho. Eu nem sequer sabia atuar como DJ, apesar de ter uma data de discos. E foi assim que expus isto pela primeira vez ao mundo. Foi um avanço a ver o que dava.

Como reagiram os outros elementos dos Vicious 5 a essa carreira em paralelo até aí desconhecida?

Sempre me apoiaram. No fundo eu já fazia este tipo de música antes dos Vicious 5. Passei a prender-me mais a ela quando comecei os Vicious 5. Conseguiria um dia fazer apenas música? Pensava eu… E se calhar a própria banda me deu alento para continuar. Eles quatro sempre acharam piada ao que eu fazia.

Quando coloca esses temas no MySpace é já com o nome Xinobi?

Sim, foi em 2006, no pico do MySpace. Foi há quase dez anos.

Mas o nome Xinobi vem de finais dos anos 80. Era um jogo…

Exatamente. Foi o único jogo em que gastei dinheiro naquelas salas de máquinas. Embora às vezes tentasse alguma coisa no Robocop. E depois usei aquilo como nick em fóruns, no IRC, em sites. E acabei por usá-lo sem pensar muito, na primeira página no MySpace.

Tal como a editora Discotexas (à qual está ligado), a carreira de Xinobi nasceu assim com ligações internacionais desde o início. A editora sugere quase uma ideia de família…

Isto começou comigo e com o Luís, o Moullinex. Com os Vicious 5 na conversa ele perguntou-me se era possível fazer uma remistura. Na altura arranjei as pistas de áudio e ele até fez uma coisa bastante interessante e continuámos a comunicar. E às tantas ele arranjou um espaço na Day After, em Viseu. Era uma festa. E convidou-me para ir lá. A festa aconteceu no bar Texas, lá dentro da discoteca. Alguém, naquela onda mais bêbeda a meio da noite, foi lá dizer que aquilo não era o Texas, mas uma Discotexas… E pronto, gostámos do nome. Primeiro pegamos nalguns amigos que tínhamos, como os Bandidos, os Double Damaged… E fizemos a Discotexas como um coletivo, uma marca que não existia mas poderia dar força a toda a gente. E foi um núcleo sobre o qual havia uma partilha entre vários artistas. Quem ouvia Moullinex, por exemplo, começava a ouvir falar de mim… Depois, a dada altura, frustrados por não conseguir uma plataforma editorial com outras editoras, achámos que podíamos também na Discotexas criar uma editora para as nossas próprias músicas. E na altura, no início, até trabalhámos com um rapaz do Porto que tinha know how de como levar a música a plataformas digitais, algo que não sabíamos fazer. Somos artistas e às vezes temos aquele modo autista de estar no estúdio e perdemos a noção do tempo. Ou temos de viajar muito e é difícil concentrarmo-nos em coisas que exigem estar num escritório. E a dada altura o Hugo [Moutinho] chegou e ajudou-nos em coisas que não conseguíamos resolver, se calhar porque nem sensibilidade para elas teríamos… E ajudou-nos a dar uma visão para a editora, a encontrar artistas novos…

A ideia de ‘branding’ visual que, a dada etapa, caracterizou os vossos discos. Nasce dessas conversas?

Talvez. Não sei exatamente. Mas a dada altura quisemos fazer uma espécie de company sleeve. Isto é Discotexas, mas depois o desenho é para o artista. A fonte, o logo e o formato da capa são sempre iguais.

A DFA é uma referência (não necessariamente na sonoridade, mas como modelo)?

Acho que por um lado pode ser um template para uma editora modelo. Começou com os LCD Soundystem, que são os maiores. É uma editora que consegue ser experimental e fazer lançamentos totalmente ao lado, mas depois tem o Juan McLean, Shit Robot, Rapture… Mantém aquela “cena” DFA do início mas pode experimentar pelos lados. É interessante e funciona também um bocado em modo de família.

Em Xinobi (e em alguns discos da Discotexas, nomeadamente os de Moullinex) há uma relação com o disco, som que pouca tradição teve entre nós. Houve DR Sax e Black Out nos anos 90, por exemplo. Mas nos anos 70 quase não houve nada por cá. Como chegou ao disco?

Comecei a ouvir música electrónica porque um professor de filosofia me emprestava discos. Ele comprava uns 50 CDs por semana e emprestava-os e falávamos sobre os discos. Emprestou-me o Super Discount, do Etienne de Crécy. Eu só ouvia rock’n’roll e heavy metal… Mas aquilo suscitou qualquer coisa… Depois acabei por conhecer os Daft Punk, achava os vídeos fantásticos, e a música acabou por entrar também. Comecei então a subtrair aos Daft Punk o que era mais contemporâneo e a perceber a música disco. Era a base desses projetos que gostava tanto. E foi aí que comecei a pensar que podia fazer algo semelhante.

E com eles recuou às raízes e procurou as marcas do presente?

Sim, é mesmo isso. É natural que uma geração comece a ouvir o que lhe é contemporâneo e só depois se aperceba de que o que ouve tem uma plataforma de influências anteriores. Quando ouvi os Daft Punk inicialmente não me ia lembrar do disco. Isso só depois de perceber que samplavam estes e aqueles. E foi ouvir a música original. E fui andando para trás… Já conhecia algum disco, mas eram as coisas mais comerciais. Conhecia os Abba, já tinha ouvido o Cerrone, nem que fosse em filmes.

No álbum 1975 gosta depois de fazer depois diálogos com outras músicas.

Apesar de, quando comecei no meu quarto, não estar a pensar em cantar e ser cantor, as primeiras bandas que tive eram de canções. Aprendi música assim. A tentar copiar a estrutura clássica de canção em bandas rock. A minha forma de fazer música sempre teve isso. A dada altura posso ter uma ideia, mas evolui para uma espécie de refrão. Ou meto um loop novo que parece um refrão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: