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Pop e eletrónicas, com sabor a teatro

Texto: NUNO GALOPIM

Faz hoje 30 anos que os Yello lançaram ‘Stella’, o quarto álbum de uma das mais interessantes discografias da pop electrónica dos anos 80.

Pormenor da capa de 'Stella' (pintura de Ernst Gamper)

Muitas vezes esquecidos quando se evoca a primeira geração de projetos a explorar as electrónicas como ferramentas ao serviço da canção pop, os Yello não só foram peça determinante entre esse primeiro grupo de visionários, como assinaram alguns dos melhores discos de pop electrónica dos anos 80 (além de que são ainda, juntamente com os Young Gods, e não muitos mais, uma das mais importantes contribuições que a Suíça deu ao mundo da música popular).

Conta a mitologia que o grupo nasceu do encontro de um antigo motorista de camiões, um músico com ambições experimentais e um milionário. O primeiro destes três, Boris Blank, começou a fazer experiências com sons e manipulação de gravações, juntando-se a Carlos Perón (o segundo) ainda nos anos 70, criando então um pólo pioneiro na emergente vida popular da música electrónica. Depois de uma viagem de trabalho (para estabelecer contactos) aos EUA, somaram ao coletivo a presença de Dieter Meier (o terceiro), que tinha já assinado algumas obras como artista conceptual, tomando então o lugar de vocalista e autor das letras entre o trio que então nascia. Com o nome Yello estrearam-se com um primeiro single em 1979, lançando depois os álbuns Solid Pleasure (1980), Claro Que Si (1981) e You Gotta Say Yes To Another Excess (1983), pelas suas canções cruzando-se, além das electrónicas e de um meticuloso trabalho de arquitetura rítmica, referências escutadas na música latina, no jazz e outros terrenos.

Em janeiro de 1985 editam um quarto álbum que corresponde ao seu primeiro conjunto de canções criadas após a saída de Perón (que nesse mesmo ano estreava a oratória Die Schöpfung der Welt; oder 7 Tage Gottes) e consequente redução dos Yello a uma dupla constituída por Blank e Meier. Stella é, um pouco como Big Science de Laurie Anderson, um disco de canções que teve, na verdade uma visão de teatro musical na sua origem. Mas ao contrário de United States de Laurie Anderson, o musical Snowball não se materializou (por razões orçamentais), acabando parte da ideia por ser usada num filme rodado já depois da viragem do milénio. Meier e Blank acabaram assim com uma série de novas canções nas mãos, pelas quais se expressava não apenas uma ordem pop mais clara que no que haviam mostrado antes (note-se que a carga experimental dos Yello pré-1985 é bem mais intensa) como uma relação mais intensa com a música de dança e, acima de tudo, uma ideia de grandiosidade cénica, quase operárica, que não esconde o berço pensado para o palco em que as composições haviam nascido. O imponente e sugestivo Stalakdrama, por exemplo, seria a abertura da peça…

Stella é assim, por várias razões, o disco que enceta uma segunda etapa na carreira dos Yello e, também, o álbum que define aquela que hoje reconhecemos como sendo a linguagem de referência da sonoridade do grupo. Vicious Games e Desire foram escolhidos como singles, concedendo a Stella mais visibilidade que nunca para o grupo (que faria inclusivamente do disco o primeiro álbum de um grupo suíço a chegar ao primeiro lugar na tabela do seu próprio país). O impacte maior, mais distante e duradoiro que o álbum depois alcançou deve-se em grande parte a um terceiro – e inesperado single – que surgiu depois de o realizador John Hughes ter solicitado a utilização do tema Oh Yeah na banda sonora do filme O Rei dos Gazeteiros. A enorme projeção que o single deu ao álbum e ao grupo abriu portas a uma etapa de grande visibilidade dos Yello, que se estenderia até finais dos anos 80, somando ainda momentos de glória com o álbum One Second (1987) e singles como Goldrush (com Billy McKenzie), The Race e The Rhythm Divine (com Shirley Bassey).

 

Vejam aqui os três telediscos extraídos deste álbum:

Teledisco de Vicious Games. Foi rodado na Rote Fabrik (a Fábrica Vermelha), espaço de trabalho dos Yello. A atriz Mirjam Montandon surge aqui a fazer o playback das vozes de Rush Winters, que não estava disponível na altura da rodagem do teledisco.

Teledisco de Desire. Foi rodado por ocasião de uma viagem a Cuba, seguindo a sugestão de travo latino da canção (e estabelecendo aí pontes com algumas canções da etapa anterior da discografia).

Teledisco de Oh Yeah. Rodado em 1987, quando o tema foi lançado como terceiro single do álbum, acabaria por ser a chave para a construção de uma linguagem visual que o grupo usaria mais vezes.

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