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Ritmos existenciais

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

‘Whiplash – Nos Limites’ é um olhar distinto e imaginativo sobre o mundo da música e dos seus bastidores.

Uma das boas surpresas de janeiro encontra-se num filme que tinha tudo para ser banal e passar despercebido. Whiplash – Nos Limites consegue ser muito mais do que uma história sobre a relação entre um rapaz aspirante a baterista profissional, e o seu inescrupuloso mentor, um especialista na matéria que utiliza métodos muito pouco ortodoxos (e excessivamente violentos, acrescentamos) para incutir vários ensinamentos profissionais no seu grupo muito seleto de estudantes. É uma jornada única, que envolve o choque entre duas pessoas em tudo diferentes, mas que estão ligadas por algo em comum: uma gigantesca paixão pela música, que os move e faz pulsar, constantemente. Tanto para o bem, como para o mal.

A influência mútua é notória no modo como o professor (o excecional J. K. Simmons, nomeado também pela Academia) age sobre o seu aluno provocando atitudes que, movimentadas pelas batidas, pelos treinos incansáveis e as múltiplas atuações, terão consequências na vida deste jovem e de todos aqueles que o acompanham. Esta é a face mais bem explorada de Whiplash e que distingue o filme de tantos outros títulos que ambicionaram trabalhar histórias com o mesmo modelo dramático. Porque enquanto muitas dessas outras narrativas acabaram por resvalar para dramatismos “piegas” ou formalismos incoerentes, Whiplash oferece o inesperado, ou pelo menos, aquilo que seria menos óbvio, em cada passo da evolução psicológica das personagens. Essa espécie de decadência que, ao mesmo tempo, pouco tem de decadente, é construída com os efeitos fenomenais da música e manuseada com uma construção visual e cinematográfica muito apelativa (dado o contexto). Damien Chazelle, o realizador que reciclou a sua curta homónima aplaudida no Festival de Sundance para elaborar esta longa, pega nas suas próprias experiências na música para nos proporcionar um filme dotado e encantado, que versa sobre a transformação extrema de um indivíduo em situações que podem revolucionar a sua existência.

No entanto, é importante não confundir a veracidade do material ficcional com o realismo das práticas musicais retratadas. Muitos artistas poderão torcer o nariz a esta narrativa, se tiverem em mente os seus próprios métodos e ao compreenderem, de imediato, que as aulas do professor Fletcher não passam de uma pura e absurda teatralização. E o objetivo de Chazelle não é tanto o de seguir de forma realista uma abordagem aos espaços da profissionalização na música, mas antes o de captar, com a máxima potência, toda a catadupa de emoções descontroladas que se vivem nas andanças por estes mundos.

Para isso é preciso, claro, tornar o mais humano possível essa série de regras restritas à música, o que coloca em risco a eventual notoriedade documental que esta ficção poderia ter. Mas seria essa uma condição necessária para que Whiplash conseguisse provocar tanto entusiasmo? Não, porque a sua força está no trabalho dos atores, na relação entre personagens, na detalhada e subtil realização. E também em alguma imaginação que se revela em certas cenas que mostram o espetáculo musical com uma densidade cinematográfica ímpar.

Whiplash é um dos poucos filmes modernos que sabem provar como a ligação entre o cinema e a música sempre foi fundamental e de que não se pode encarar nenhuma das duas artes como simples função de “acessório” da outra. E numa era de sofisticadas tecnologias cinematográficas, que trocam as maiores complexidades dos meios tradicionais por uma pompa visual que confunde o valor de uma narrativa com o lucro em pipocas e refrigerantes, é reconfortante encontrar um filme como este, que aproveita ao máximo todas as suas potencialidades.

Whiplash
Realizador: Damien Chazelle
Elenco: Milles Teller, J.K Simmons, Melissa Benoist
Distribuidora: Big Picture
4 / 5

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