Últimas notícias

Um monumento ao sonho

Texto: DANIEL BARRADAS

As aventuras completas de Little Nemo publicadas pela Taschen no final do ano passado são um acontecimento editorial que faz finalmente justiça histórica a um património artístico extraordinário e essencial para compreender a génese da “cultura popular” do século XX.

Little Nemo in Slumberland, publicada originalmente de 1905 a 1927 no suplemento de domingo de jornais americanos, é uma das mais marcantes séries da história da Banda Desenhada. Os episódios semanais de uma página consistiam em aventuras surreais no mundo dos sonhos que terminavam sempre com o pequeno Nemo a acordar no último quadradinho, frequentemente a cair da cama.

É uma série incontornável não apenas pela beleza do desenho de Winsor McCay, mas também pelo seu génio inventivo na narrativa e composição visual que trouxeram uma inédita qualidade artística a um meio até então pouco explorado e que acabou por impor a Banda Desenhada como fenómeno da “cultura popular” e a empurrou para o estatuto de nona arte.

Winsor McCay. The complete Little Nemo é uma (literalmente) monumental edição lançada pela Taschen no final de 2014 que consiste em dois volumes de grande formato reunidos numa multicolorida caixa de cartão (que inclui pega para facilitar o transporte).

Os volumes correspondem a uma compilação de todos os 549 episódios de Little Nemo (encadernada com capa dura) e a uma biografia alargada do seu criador Winsor McCay (em capa mole para facilitar a leitura).

A edição começa por impressionar pelo grande formato que, embora seja ligeiramente menor do que o dos jornais de domingo em que Little Nemo foi originalmente publicado, permite uma melhor apreciação dos desenhos e composições do que o formato reduzido de algumas edições anteriores.
A editora reproduziu as melhores cópias disponíveis da impressão em jornal e de facto a qualidade, tanto da digitalização como da impressão (em papel de cor e textura semelhante ao que os jornais da época teriam) notam-se imediatamente.

Não se confunda esta reprodução fiel do material histórico com um restauro. Parte do fascínio deste material é ser também testemunho de um momento chave da história da impressão. Os suplementos de domingo dos jornais americanos foram dos primeiros a fazer impressão colorida em grandes tiragens e as fragilidades pioneiras do sistema estão bem visíveis no desfasamento das tramas de cor em todos os episódios. Apesar do genial uso da cor por McCay, muitas vezes não se pode deixar de pensar quão mais fenomenais alguns dos episódios nos pareceriam se de facto as quatro cores batessem certas. O próprio McCay deve ter sofrido com alguns dos desaires técnicos da impressão desse tempo: refira-se o absolutamente genial meta-episódio em que uma das personagens telefona para a gráfica a queixar-se da falta de tinta: num dos quadradinhos falta azul, no outro amarelo, e no final de tantas queixas a gráfica acaba a enviar a tinta preta pelo telefone como se fosse uma mangueira.

Haverá certamente ainda espaço editorial no futuro para que se edite Little Nemo com as tramas corrigidas, numa tentativa de repor as cores originais como intencionadas pelo seu criador, mas esta edição da Taschen fica como marco histórico no excelente trabalho que fez ao reunir pela primeira vez num só volume a totalidade da obra em impecável reprodução.

O outro volume apresenta um extraordinário trabalho documental de Alexander Braun que é muito mais do que uma simples biografia de Winsor McCay. Braun faz-nos o retrato de toda uma época e explica em diversos artigos as convulsões culturais, sociais, industriais e políticas que influenciaram e foram influenciadas por Little Nemo e pelo génio de McCay.
Note-se que este volume reproduz muito mais trabalhos de McCay que nos dão um olhar panorâmico sobre a sua extensa, variada e frequentemente inovadora obra, não apenas na imprensa mas também enquanto pioneiro do cinema de animação. Justifica-se portanto que seja também editada em grande formato e com a deliciosa particularidade de cada capítulo estar paginado como um artigo de jornal, o que nos mantém dentro desse mundo da imprensa americana do início do século XX.

Se esta edição tem o preço (aparentemente proibitivo) de um peça de mobiliário é precisamente porque não cabe numa estante da sala e merece/precisa ser colocada num pedestal para uma leitura em condições e devida veneração. E se nos dedicarmos a apreciar devidamente cada uma das páginas, ao domingo, há aqui material suficiente para os próximos 22 anos.

“Winsor McCay. The Complete Little Nemo”
Alexander Braun
Taschen 2 vols., 34,4 x 44 cm, 708 páginas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: