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A lenta agonia dos Oscars

Texto: JOÃO LOPES

O novo filme de J. C. Chandor, Um Ano Muito Violento (estreia portuguesa: 5 de Fevereiro), centra-se nas atribulações de um casal que tenta gerir a sua empresa de distribuição de combustível numa Nova Iorque marcada por muitos conflitos nas ruas. Com os fabulosos Oscar Isaac e Jessica Chastain nos papéis principais e um notável argumento (do próprio Chandor), a fazer lembrar a tradição do thriller tal como foi explorada nas décadas de 1970/80 por Alan J. Pakula ou Sydney Pollack, trata-se de um dos títulos centrais na produção americana de 2014.
Olhamos para a lista de nomeações para os Oscars (a atribuir no dia 22 de Fevereiro) e Um Ano Muito Violento não consta… Zero. Nada. Como é possível?

Peço que não me interpretem mal: este não é um discurso cínico sobre a “inutilidade” dos Oscars (já basta o que basta). Nem sequer uma negação (bem pelo contrário) da fascinante diversidade da actual produção made in USA. Acontece que, independentemente dos títulos que estão a disputar os prémios principais da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ficamos com a sensação de que os Oscars deixaram de ser um evento singular da própria indústria, para funcionarem como a derradeira jornada de um “campeonato” que, em boa verdade, se vai decidindo nos confrontos anteriores. Que é como quem diz: na avalancha de outros prémios, desde os Globos de Ouro aos que são atribuídos pelas “Guilds” das diversas áreas profissionais.

Que aconteceu, então? Por um lado, um crescimento desmesurado, por vezes, totalmente desproporcionado, da presença mediática desses prémios anteriores. Os Globos, por exemplo, são atribuídos por nove dezenas de jornalistas (da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood), enquanto os Oscars resultam da votação de mais de seis mil profissionais da própria indústria…

Por outro lado, pior um pouco, o investimento do marketing nas estreias do último trimestre de cada ano faz com que todos os prémios, incluindo os Oscars, já não existam como um balanço da pluralidade de doze meses de estreias, antes como uma agitação mais ou menos previsível centrada numa quinzena de títulos que, em poucas semanas, estão a chegar às salas escuras. A proeza já remota de um filme como O Silêncio dos Inocentes — vencedor dos principais Oscars atribuídos em 1992, tendo estreado em Fevereiro de 1991 — parece, agora, um fenómeno impossível de repetir.

Uma vez mais, este ano, a Academia aposta num novo apresentador, Neil Patrick Harris, para revitalizar o seu grande momento anual. Tenho dúvidas, em todo o caso, que a quebra regular de audiências televisivas (mesmo não esquecendo que 2014 foi um ano de alguma recuperação) seja um mero problema de cosmética do espectáculo. O que parece estar a ser perdido é o próprio efeito simbólico das estatuetas douradas, cúmplice de um patético apagamento de memórias (tragicamente sensível em muito “jornalismo” cinematográfico). Lembremos apenas o óbvio: para contrariar a sua lenta agonia, será preciso que os Oscars surjam não como a “conclusão” da temporada de prémios, mas sim um acontecimento sem paralelo, impossível de antecipar, no interior dessa mesma temporada.

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