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Weinberg: (re)descobrir um resistente

Texto: NUNO GALOPIM

O maestro Thord Svedlund, agora com uma orquestra de Helsimburgo, continua uma cruzada pela reativação da memória da música de Mieczyslaw Weinberg.

Pormenor da capa do novo disco

Em tempo de assinar os 70 anos do fim da II Guerra Mundial vale a pena lembrar um autor cuja obra existe apenas porque, ao invés dos restantes familiares, ele decidiu partir. Mieczyslaw Weinberg (1919-1996) nasceu no seio de uma família judia polaca de Varsóvia e tinha concluído uma primeira importante etapa dos estudos musicais em 1939 pouco antes do eclodir da guerra. Ao contrário da família, que optou por permanecer na Polónia (sendo depois encarcerada no gueto de Lodz e morta no campo de concentração de Trawniki), apontou azimutes a Leste…

Perante a invasão alemã encontrou primeiro refúgio perto da fronteira da Bielorússia. Mas perante o avanço das tropas invasoras viu-se obrigado a avançar para mais longe, rumo a Tashkent, no Uzebequistão, onde então foram reunidos outros intelectuais e artistas soviéticos. Impressionado pela descoberta da Sinfonia Nº 5 de Shostakovich e pela música de Taneyev, foi nesse refúgio a Leste da frente de batalha que Weinberg compôs a sua primeira sinfonia, que, estreada em 1942 (em plena guerra) então dedicou ao Exército Vermelho.

Apesar dessa aclamação inicial de resistência coletiva, sua música não faria contudo parte do espaço musical aclamado pelo regime de Estaline (teve mesmo obras silenciadas, sobretudo no período que se segue à Guerra e antecede a morte do ditador). E, para sobreviver, dividiu o seu trabalho, em várias etapas da sua vida, entre a escrita para teatro e cinema e atuiu frequentemente como pianista. Residindo em Moscovo muito perto de Shostakovich, que se tornou um dos seus maiores mentores e amigos, era com ele que ia trocando ideias, pela sua música (sobretudo a orquestral) ecoando sinais de primeiras heranças desse que foi um dos maiores sinfonistas do século XX.

Quase ignorado em vida, Weinberg é um nome que tem ganho algum reconhecimento e notoriedade nos últimos anos, a sucessão de edições discográficas que têm surgido estando, aos poucos, a revelar muita da sua obra de música de câmara e orquestral e, inclusivamente, a ópera. Daí que valha a pena acompanhar o que os catálogos da Chandos, Naxos e Neos (que criou mesmo a série ‘Weinberg Edition’) têm feito pela divulgação de uma obra que não merecia o silêncio a que a dada altura quase esteve votada. Um esforço ao qual se juntou recentemente a ECM, que em 2014 apresentou um disco duplo – protagonizado por Gidon Kremer – recordando peças da obra de câmara e sinfónica do compositor. No texto que acompanha esta edição da ECM Wolfgang Sandner nota um sentido de otimismo que caracterizava a personalidade de Weinberg (em contraste com a alma mais magoada de Shostakovich), mesmo expressando muita da sua música um tremendo sentido de melancolia.

São essas marcas de personalidade, em confronto com a obra artística e o contexto histórico em que surgiu que estão agora, aos poucos, a ganhar forma através do cada vez mais expressivo volume de edições de novas gravações de obras suas. Em 2014, além do já referido disco (duplo) de Gidon Kremer lançado pela ECM, entre os títulos lançados contaram-se gravações das sinfonias números 12 (criada em memória de Shostakovich) e 18, pela Orquestra Sinfónica Estatal de São Petersburgo, dirigida por Vladimir Lande, em dois discos editados pela Naxos. A CPO apresentou dois discos de música de câmara juntando, entre outros, nomes como os de Elisaveta Blumina ou o Quarteto Danel. A editora russa Melodya apresentou gravações históricas, de finais dos anos 60, de peças de música orquestral. E o lote não termina aqui…

2015 juntou já a esta discografia – em construção – mais um volume de referência. Trata-se de uma incursão pela obra de Weinberg pela Orquestra Sinfónica de Helsimburgo, dirigida por Thord Svedlund, maestro que até aqui vinha a desenvolver um trabalho sistemático de abordagens à obra do compositor na companhia da (também sueca) Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, com a qual gravou as sinfonias números 1, 7 e 20 e concertos para flauta, clarinete e violoncelo, em cinco discos editados (também pela Chandos) entre 2008 e 2012, unidos por imagens de frio e neve a que este novo volume regressa, sugerindo uma ideia de continuidade. O novo disco junta as Sinfonias de Câmara números 3 e 4, respectivamente de 1990 e 1992, obras que representam algumas das suas derradeiras composições. A última, apesar de nascida já em tempo de mudança, não esconde contudo o desencanto de quem não só assistiu à instalação de um certo desinteresse pelo seu trabalho como foi notando a progressiva partida dos amigos e figuras mais próximas.

Os tempos mudaram. E hoje, um retrato do mundo musical “russo” do século XX não só envolve figuras vivas nascidas em antigas repúblicas da URSS (como Silvestrov, Kancheli, Gubaidulina, Pärt ou Kissine) como junta já Weinberg às referências maiores que foram Shostakovich, Prokofiev e Schnitttke.

O disco ‘Winberg – Chamber Symphonies 3 & 4’, gravado pela Orquestra Sinfónica Estatal de São Petersburgo, dirigida por Thord Svedlund, foi lançado em suporte SACD pela Chandos.

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