Júpiter merecia melhor
Texto: NUNO GALOPIM
Numa altura em que filmes como Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer ou, já com uns anos, Moon – O Outro Lado da Lua, de Duncan Jones, nos recordam que a essência da melhor ficção científica reside nas qualidade de uma boa história (e também de uma inventiva relação com as imagens e os sons), eis um bom exemplo de tudo o que não interessa no mapa sci-fi do nosso tempo. Verdadeiro festival de encher o olho (a quem se deixa iludir, entenda-se), A Ascensão de Júpiter está mais perto dos inconsequentes mostruários de efeitos visuais de um Transformers que de uma verdadeira space opera. É um sem fim de acontecimentos, uns apenas porque-sim, com personagens de espessura zero, piscares de olho aos universos manga e dos videojogos e uma história de uma pobreza franciscana tão sem imaginação e carregada de clichés que faz pensar como é que os mesmos dois irmãos que tiveram a visão que fez de Matrix um dos mais importantes títulos da ficção científica dos anos 90, se despistaram agora num filme com mais olhos que barriga.
A história é complicada. Imaginem um universo onde há grandes famílias. Uma delas detém, entre vários bens, o planeta Terra. Este e outros mundos são na verdades fábricas a explorar na altura da “colheita” (e para não fazer spoiler neste departamento ficamos por aqui). O atual dono da Terra está numa disputa com os dois irmãos depois da morte da mãe. E eis senão esta surge “reencarnada” numa filha de uma russa que se mudou para Nova Iorque e trabalha de mulher-a-dias. Ah, chama-se Júpiter porque o pai era astrónomo e foi baleado em pleno apartamento porque sim…
Não são sete cães a um osso, mas três manos a uma Júpiter, cada qual mandando à Terra emissários para a levar (ou matar). E se pelo caminho escavacarem uma cidade em plena perseguição nada mal, porque têm um certo poder que reconstrói tudo da noite para o dia. E sem cola, como sucedeu com a máscara de Tutankhamon.
Ora é ao ver esta sequência de perseguição sobre Chicago, que deixa alguns prédios em cacos, que fica claro como o olhar dos realizadores parece o de quem persegue o inimigo num videojogo e nem olha nem para o lado nem para o contexto. Do temporal de destruição só resultam como acção da cidade sobre os factos, uma buzina de um alarme que dispara… Nada mais… E a vida continua.
É neste plano que se faz todo o filme. Cenários majestosos atrás de cenários majestosos, com um tempero aqui e ali à la Star Wars, mas com uma galeria de personagens em que ninguém acredita (e com frequentes acessos de atitude e ações inconsequentes face ao que se vê pouco depois). E com uma tentativa de humor ao imaginar um caos burocrático ao jeito dos velhos notários que entra em contrassenso com o mundo high tech em que tudo ali acontece. Resultado, tal como na sequência sobre a cidade, a verosimilhança (mesmo a que a ficção requer) está aqui para lá de Plutão.
Uma banda sonora balofa e banal, interpretações medíocres de Mila Kunis ou Channing Tatum e aquela réstia de herança dos contos de fadas em que os maus são maus e pronto, e os bons ou têm azar ou acabam casados (e aqui não há spoiler que valha), somam a A Ascensão de Júpiter tantos lugares comuns e predicados desinteressantes que, de tamanha ópera espacial nasce mesmo um dos mais aborrecidos e desinteressantes filmes de ficção científica dos últimos anos.
A Ascensão de Júpiter (Jupiter Ascending)
de Lana e Andy Wachowski
Com: Mila Kunis, Channing Tatum e Eddie Redmayne
Distribuição: Nos Audiovisuais

Ascensão de Júpiter: 5*
“Ascensão de Júpiter” tem excelentes efeitos visuais e sonoros, o que me cativou e me fez imergir no filme.
“Jupiter Ascending” tem também um argumento cuidado, apesar de a sua parte final ser algo atabalhoada.
Cumprimentos, Frederico Daniel.
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