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O compositor das trevas

Texto: NUNO GALOPIM

Autor da música dos seus filmes, John Carpenter nunca tinha editado um disco que não fosse uma banda sonora. A estreia chega agora, com ‘Lost Themes’.

Foto: Kyle Cassidy

Tal como Clint Eastwood e, a dada altura, Charles Chaplin ou Satyajit Ray, John Carpenter não costuma deixar a música para o seu cinema em outras mãos. No seu caso o início da história não teve senão uma explicação: budget… Carpenter já tinha assinado música para a sua (histórica) estreia nas longas-metragens em Dark Star (1974) e Assalto à 13ª Esquadra (1976) quando, em 1978, ao trabalhar em Halloween, a ideia do realizador era a de, sem orçamento para uma banda sonora, deixar o filme estrear sem música… Ao mostrá-lo a um jovem executivo este respondeu que não tinha ficado assustado com o que vira. Arregaçando as mangas, e assinando uma banda sonora de bricolage caseira sob o nome (Bowling Green Philharmonic Orchestra), transformou definitivamente em rotina um hábito que tornaria o seu nome célebre não apenas pelos filmes que realizou, mas pelas bandas sonoras essencialmente feitas com electrónicas que ajudaram a dar a alma a clássicos como O Nevoeiro (1980), Nova Iorque 1997 (1981) ou O Príncipe das Trevas (1987), a sua obra posterior na verdade nunca tendo abandonado um registo spooky desenhado com a ajuda de teclados analógicos dos anos 80, aqui e ali usando uma guitarra e pontuais outras intervenções, mas sob uma perspetiva de produção que traduz ecos daqueles tempos.

Apesar da extensa obra de música criada para o cinema – ao todo conta com 22 títulos, entre uma curta de 1970 e uma outra mais recente, de 2013 – John Carpenter nunca tinha até aqui editado um álbum que não fosse uma banda sonora. Lost Themes, que agora emerge, não foi contudo fruto de um plano antigo. Foi antes um acaso, tendo nascido entre sessões de videojogos com o seu filho Cody, ambos passando pelos teclados em tempo de pausas entre jogos… Dos acasos nasceu uma coleção de temas. E, dali, este álbum.

Apesar de trabalhado em conjunto com Cody e de contar com a ajuda de um afilhado, Lost Themes é não só um disco onde está claramente inscrito o código genético clássico da música de Carpenter como aponta azimutes de afinidade a trabalhos vintage que associamos sem dificuldade aos caminhos que procurava quando fazia música para o seu cinema nos anos 80. Estão aqui os arpejos habituais, as sugestões de cenografia e tensão, as guitarras que pontualmente assinalam pontos de fuga e ocasionalmente tomam o protagonismo. Mas ao invés do habitual em trabalhos para cinema, a música aqui não segue um tema ou um clima comum, revelando mesmo cada composição um gosto pela sugestão de acontecimentos narrativos próprios, muitas delas sendo mesmo feitas por partes.

Contudo, e apesar das afinidades e diferenças, Lost Themes não vai muito para além do que um eventual catálogo de marcas e referencias pessoais de Carpenter poderia sugerir. Está, como se diz agora, na sua zona de conforto, a diferença maior sendo o facto de a sua música até aqui conhecida ter nascido da necessidade de encontrar uma voz para as imagens, esta agora sugerindo, no sentido contrário, imagens que aqui podemos imaginar. No fim, Lost Themes é mais um doce para admiradores que uma peça fulcral na obra do realizador (e compositor). Nada como regressar à música de Nova Iorque 1997, por exemplo, para sentir como estas mesmas sonoridades e lógicas de construção ganham outro fôlego e… tensão.

John Carpenter
“John Carpenter’s Lost Themes”
LP & CD, Sacred Bones / Popstock
3 / 5

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