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A herança de Arthur Russell nos 25 anos da Red + Hot Organization

O mais recente lançamento da Red + Hot Organization junta nomes como os de Sufjan Stevens, Hot Chip, Robyn ou Devendra Banhart em volta de versões de temas de Arthur Russel.

Tendo recuperado o dinamismo (e melhores ideias) com o volume indie de 2009 Dark Was The Night, a Red + Hot Organization – que desde há quase 25 anos cria campanhas de luta contra a sida através da música – lançou este ano dois novos discos. Num deles juntou figuras como Max Richter, Daniel Hope ou as Amina para reinventar (ou re-compor) peças de Johann Sebastian Bach. Neste novo volume, volta a aplicar esse mesmo principio, o de ter um músico como protagonista e cujo trabalho é entregue a novas visões e que, no passado, permitiu já abordagens às obras de figuras como Cole Porter, George Gershwin, Duke Ellington ou Fela Kuti. De novo há o nome na berlinda: Arthur Russell (figura que, tal como Fela Kuti, foi um entre os muitos que a doença fez desaparecer demasiado cedo).

Visionário quase invisível no seu tempo e cujo reconhecimento maior só chegou postumamente – o primeiro dos discos póstumos surgiu em meados dos anos 90 na Point Music, aquela que era então a editora coordenada por Philip Glass – Arthur Russell era uma “voz” multifacetada cuja obra percorreu caminhos tão distintos quanto os da música disco, o dub, a folk e até mesmo as vanguardas experimentais. Claramente integrado na vibrante cena “alternativa” que habitava Nova Iorque nos anos 70, Arthur Russell deixou um vasto corpo de gravações que, sobretudo depois de duas antologias editadas em 2004, ganhou nova atenção (e sucessivas edições, inclusivamente de material inédito). A (saudável) dispersão da sua composição em várias frentes está agora devidamente representada num cartaz de nomes que tanto recuperam a relação de Arthur Russel com a música de dança como exploram a sua alma folkie, ao mesmo tempo havendo ainda frestas de atenção para com a faceta mais vanguardista do seu trabalho.

Através de contribuições brilhantes de figuras como Sufjan Stevens, Devendra Banhart, Richard Reed Parry (num coletivo que junta as contribuições de Little Scream, Sam Amidon, Colin Stetson e Sarah Neufeld), Rubblebucket & Nitemoves ou Phosphorescent surge em Master Mix: Red Hot + Arthur Russell um dos mais apetitosos menus gourmet em travo indie que 2014 nos deu a escutar. Por outro lado Robyn, Hot Chip, Blood Orange ou os Scissor Sisters asseguram a luminosidade que, apesar de um certo travo de melancolia (inerente à voz de Arthur Russell e certamente ao facto de o violoncelo ter sido o seu instrumento primordial), podemos encontrar entre o legado mais dançável que o homenageado nos deixou. No fim, e ao lado de peças como Red Hot + Blue ou Dark Was The Night nasce aqui um dos melhores títulos da (já extensa) história em disco da Red + Hot Organization.

Uma descoberta tardia

Redescoberto por duas antologias editadas em 2004 (respetivamente The World of Arthur Russell, lançado pela Soul Jazz e Calling Out of Context, pela Rough Trade), Arthur Russell (1951-1992) é hoje reconhecido como nunca o fora em vida. Vários discos seus têm conhecido reedição nestes últimos dez anos, o mercado das novas edições tendo também acolhido vários lançamentos com inéditos. Entre os títulos que o fazem agora mais presente que outrora, contam-se First Thought Best Thought (Rough Trade, 2006, um duplo CD que inclui os dois volumes de Instrumentals e ainda Reach One, Tower of Meaning e Sketch For The Face of Helen) ou Love is Overtaking Me (Rough Trade, 2008, antologia de inéditos de travo folkie em gravações restauradas por Chris Taylor, dos Grizzly Bear) e reedições de títulos como World of Echo (originalmente lançado em 1986) ou Another Thought (álbum póstumo de 1994 reeditado pela Orange Mountain Music, de Philip Glass).

A sua música chegou também ao cinema. Por exemplo, na banda sonora de Keep The Lights On, de Ira Sachs. Ou, com ainda maior protagonismo ainda, em Wild Combination: A Portrait Of Arthur Russell, documentário de Matt Wolf que deu a todas estas músicas uma contextualização e mesmo um claro fio narrativo.

Para um olhar mais completo ainda sobre Arthur Russell um olhar biográfico surgiu em livro há cinco anos. Tem por título Hold On To Your Dreams, é assinado por Tim Lawrence, e revela 414 páginas nas quais se apresenta o mais profundo olhar até aqui redigido sobre um músico que hoje reconhecemos ser um dos nomes mais representativos da cultura downtown nova iorquina, sobretudo nos anos 70. O livro parte precisamente dessa consciência para, mais que um olhar meramente biográfico, nos propor antes a história da relação de um jovem nascido no Iowa com toda uma nova cultura que descobre, primeiro numa relação com o budismo na Califórnia, mais tarde com a música e artes de vanguarda numa Nova Iorque que via então florescer nomes como os de Steve Reich ou Philip Glass… Este último, admirador e amigo de Arthur Russell (tendo em épocas distintas lançado dois discos dele em editoras suas), é um entre os muitos nomes que o autor entrevista, entre as suas palavras traçando-se o retrato do músico e o da cidade em que a sua obra ganhava forma e se transformava.

Em Hold On To Your Dreams acompanhamos o relacionamento de profunda amizade que Russel manteve com Allen Ginsberg (viveram no mesmo prédio na rua 12), a vivência no The Kitchen (espaço-chave da música da cena vanguardista nova-iorquina, que teve a dada altura Arthur Russell como diretor artístico), a descoberta da club scene (com passagens pelos míticos Paradise Garage e Loft), os estúdios de gravação, os relacionamentos nem sempre fáceis com editores… A inquietude criativa de Russell, a demanda por um perfecionismo que o assombrava, o interesse pela exploração da canção, um desejo (nunca realmente conquistado) pelo sucesso, são ideias que passam por um texto claro, informado e agradavelmente direto.

25 anos de uma luta feita com música

Foi por ocasião de uma jornada de apelo à luta contra a sida que surgiu o primeiro disco da Red + Hot Organization. Estávamos no final de uma década que viu nascer importantes movimentos ativistas – como o Act Up – que ajudaram a combater o imobilismo oficial face a uma doença que claramente alastrava sem o devido apoio para a investigação, tratamentos e campanhas de prevenção. Já tinha havido um importante disco pensado para a recolha de fundos para ajudar a luta contra a doença e a investigação sobre o vírus VIH. Tratara-se de That’s What Friends Are For, um single conjunto de Dionne Warwick com Elton John, Stevie Wonder e Gladys Knight, lançado ainda em 1985. Mas foi com Red Hot + Blue que, em 1990 surge uma discografia focada na ideia de recolher fundos para este destino, gerando mesmo uma série de outros lançamentos locais em diversos países como, por exemplo, o francês Urgence, lançado em 1992 com objetivos semelhantes.

Com Cole Porter na berlinda, uma mão cheia de músicos criaram então versões de clássicos maiores da história da música norte-americana para, juntos, assinarem a primeira compilação pensada de raiz para uma campanha de recolha de fundos para programas de luta contra a sida. Coleção de 20 versões de canções de Cole Porter, Red Hot + Blue não só serviu o seu objectivo primordial como representou a definitiva inscrição nos hábitos (de produção e escuta) de uma ideia de álbum-tributo que entretanto gerou uma multidão de descendências. Unidos por uma causa comum, uma multidão de bandas e cantores nos mais diversos azimutes geográficos e artísticos encontra em Red Hot + Blue um patamar de encontro. Neneh Cherry sugere caminhos para o clássico I’ve Got You Under My Skin através da assimilação de elementos da cultura hip hop (segundo opções mais próximas dos modelos então em vigor em Nova Iorque que dos que então praticava em solo britânico). David Byrne confirma o seu interesse por músicas de latitudes exteriores aos eixos pop/rock em Don’t Fence Me In. Iggy Pop junta-se a Debbie Harry para criar um hino eléctrico em Well Did You Evah. Annie Lennox atinge patamares maiores de emotividade na abordagem minimalista para voz e piano de Every Time We Say Goodbye. Os Les Negresses Vertes levam heranças parisienses a I Love Paris. Tom Waits veste muito ao seu jeito It’s All Right With Me. kd Lang é directa e pungente em So In Love. Os Erasure levam as electrónicas de travo pop a Too Darn Hot. Os U2 mostram, em Night + Day, primeiros sinais de uma transformação linguística em progresso na sua música (e da qual nasceria Achtung Baby)… Podíamos continuar a descrição passando por nomes como os de Salif Keita, Neville Brothers, Jimmy Sommerville, Aztec Camera, Sinead O’Connor ou Fine Young Canibals que, entre outros mais, completam o alinhamento do álbum. Uns mais certeiros, outros menos consequentes. Mas entre todos uma ideia comum e, no fim, um dos mais sólidos e marcantes dos discos-tributo alguma vez registados. E um primeiro episódio numa história que, depois deste, somou já muitos outros títulos a uma obra ainda hoje dedicada à mesma causa.

Para arrumar ideias, aqui fica a história dos discos que fazem estes 25 anos de atividade da Red + Hot Organization:

1990. Red Hot + Blue. Tributo a Cole Porter com a colaboração de nomes como os de Neneh Cherry, David Byrne, U2, Iggy Pop + Debbie Harry, Thompson Twins, Tom Waits, Annie Lennox ou Salif Keita, entre outros.

1992. Red Hot + Dance. Disco de música de dança ou remisturas dançáveis por nomes como os de Madonna, George Michael, EMF, PM Dawn, Young Disciples ou Crystal Waters, entre outros.

1994. No Alternative. Um olhar pelo panorama rock alternativo de inícios de 90, com colaborações dos Sonic Youth, Soundgarden, Smashing Pumpkins, Pavement, American Music Club ou Breeders, entre outros.

1994. Red Hot + Country. Músicos da country em campanha, com contribuições de Johnny Cash, Books & Dunn + Johnny Cãs, Nancy Griffith + Jimmy Webb ou Wilco + Syd Straw, entre outros.

1994. Stolen Moments: Red Hot + Cool. Em tempo de reencontro do jazz com a música popular, um verdadeiro manifesto jazz hip hop com parcerias como Donald Byrd + Guru e Ronny Jordan, MC Solaar + Don Cárter, Me’Shell + Herbie Hancock ou Roots + Roy Ayers, entre outras.

1995. Red Hot + Bothered. Um Segundo olhar sobre o panorama rock alternativo de 90 com Lisa Germano, The Verlaines, The Sea And Cake, Liquorice e Flying Nuns, entre outros.

1996. Offbeat. Uma experiência spoken word com ambientes e trip hop, juntando Moby, Laika, My Bloody Valentine + Skylab, David Byrne, Barry Adamson e Soul Coughing, entre outros.

1996. America Is Dying Slowly. Artistas hip hop em campanha, com contribuições de De La Soul, Coolio, Pete Rock + The Lost Boyz ou Wu Tang Clan, entre outros.

1996. Red Hot + Rio. Um tributo à bossa nova, com as participações de Money Mark, Astrud Gilberto + George Michael, David Byrne + Marisa Monte, Everything But Thre Girl ou Cesária Évora + Caetano Veloso + Ryuichi Sakamoto, entre outros.

1997. Silencio = Muerte: Red Hot + Latin. Músicos latino-americanos em campanha, cm contribuições de Los Lobos, Café Tacuba + David Byrne, Juan Perro, Cibo Matto, Gegy Tah + King Changó, entre outros.

1998. Onda Sonora: Red Hot + Lisbon. Um tributo à lusofonia, com participações de David Byrne + Caetano Veloso, General D + Funk’N’Lata, k.d. lang, Paulo Bragança + Carlos Maria Trindade, Durutti Column e Bonga + Marisa Monte + Carlinhos Brown, entre outros.

1998. Red Hot + Rhapzody. Tributo a George Gershwin, com a colaboração de nomes como os de David Bowie, Morcheeba, Luscoius Jackson, Sarah Cracknell + Kid Loco, ou Money Mark, entre outros.

2000. Red Hot + Indigo. Tributo a Duke Ellington, com a colaboração de nomes como os de Terry Callier, Tortoise, The Roots, Les Nubiens e David Byrne, entre outros.

2002. Red Hot + Riot. Tributo a Fela Kuti, com a participação de D’Angelo, Jorge Ben Jor, Macy Gray, Femi Kuti, Nile Rodgers, Taj maha, Lenine, Manu Dibango, Me’Shell, Baaba Maal e Kelis, entre outros.

2009. Dark Was The Night. Sob produção conjunta de Bryce e Aaron Desner dos The National, um conjunto de contribuições vindas de terreno indie, com nomes como os Arcade Fire, Grizzly Bear, Sufjan Stevens, Yo La Tengo, Beirut, Dirty Projecters, Feist ou o Kronos Quartet.

2011. Red Hot + Rio 2. Segunda incursão brasileira, desta vez com as contribuições de Vanessa da Mata, Seu Jorg, Almaz, David Byrne, Bebel Gilberto, Marisa Monte, Caetano Veloso, Beck, Mia Doi Todd e John Legend.

2013. Red Hot + Fela. Um segundo tributo a Fela Kuti junta desta vez TUnE-yArDs, ?uestlove, Angelique Kidjo, Kyp Malone, Tunde Adebimpe, Kronos Quartet, Tony Allen, M1 ou Baloji.

2014. Red Hot + Bach. Pela primeira vez um nome da música clássica surge como figura central a definir a matéria prima a trabalhar. Participam, entre outros, Max Richter, Mia Doi Todd, Juliana Barwick, Carl Craig, Daniel Hope, o Kronos Quartet e as Amiina.

2014. Master Mix: Red Hot + Arthur Russell. Segundo disco editado em menos de um ano, é um tributo (com alinhamento que se estende ao longo de um duplo CD) onde colaboram nomes como os de Sufjan Stevens, Devendra Banhart, Richard Reed Parry, Hot Chip, Robyn, Scissor Sisters e Blood Orange.

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